A Dona Criatividade
E a minha saga com anotações
Essa semana, no curso de roteiro, o professor falou sobre criatividade, essa moça caprichosa que nos fascina e amedronta.
Perdi a conta de quantas vezes ouvi alguém dizendo que não era criativo. e que eu sou criativa. Eu ficava sem graça, como se fosse um crime ser mais criativa do que as outras pessoas.
Agora, tenho uma resposta pronta: não sou criativa, eu sou treinada.
E foi exatamente esse o assunto de uma parte da aula: o treino da criatividade. A sugestão do professor foi simples, a mesma que ouvi em quase todos os cursos que fiz:
Tenha um caderno de anotações.
Eu tento ter esse caderno há uns 17 anos. E nessa coisa de tentar, tenho vários, todos incompletos. Alguns com textos dos desafios do Clube de Escritores, outros com trechos de músicas, vários com anotações de aulas.
Sempre esquecia o bendito caderno e, quando uma ideia surgia na escola ou na faculdade, anotava de qualquer jeito em qualquer lugar. Outras vezes, não existia a possibilidade de anotar. Minhas ideias sempre apareceram nos momentos mais inoportunos:
No chuveiro
Quando acordo de madrugada e tenho insônia
Em reunião presencial
No dentista
Durante a consulta com a psicóloga
No meio de uma prova
Em uma conversa séria com o médico da minha avó
Tomando banho de mar
Dopada de remédio pra sinusite, sem energia pra abrir o olho
Quando tô dentro da piscina
E por aí vai.
Parar o que eu estou fazendo para pegar o caderno e anotar nunca foi um costume meu. Tem uma dose de preguiça aí, mas a vilã mesmo é a disciplina: eu não tenho.
Criar um hábito novo, ter disciplina pra fazer alguma coisa todo dia ou sempre que as ideias surgem é muito difícil pra mim, desde criança. Tenho aversão ao que tem cara de obrigação e esse é um problema que ainda não consegui resolver. Então, quando eu me proponho a algo assim, preciso estar 300% determinada a fazer dar certo. Só a motivação não basta e a disciplina por si só não resolve.
Tem que ter um tompêro, um algo a mais. Algo que eu não sei nomear.
Mas a escrita sempre foi mais importante pra mim. Logo, a criatividade também. Sempre teve o tal tômpero misterioso, então eu dei um jeito.
Amarrei o caderno no meu pescoço? Não.
Eu me adaptei.
Sempre que uma ideia vem, anoto no google keep. Fico com meu celular em 90% do tempo, então essa foi uma adaptação até fácil de fazer.
E quando as ideias surgem no chuveiro, por exemplo, eu ligo o foda-se. É preciso ter também uma dose de desapego pra gente se manter sã nessa coisa de ser criativa.
Acontece muito no meio de conversas. Tenho muitas ideias ouvindo outras pessoas falando, e anoto. Se eu estiver participando de uma mesa em eventos literários e pegar o celular enquanto outra pessoa fala, é porque tive um insight a partir do que ela falou. E fui anotar.
Acontece com frequência.
Sobre os cadernos, tenho dois principais. O que eu mais anoto neles são citações de livros e frases aleatória, dessas de instagram. Como um deles fica na minha mesa, é fácil de anotar.
O outro eu lembrei que existia semana passada. Encontrei no meio das bagunças que a gente acumula ao longo da vida e lembrei que há anos eu tinha separado para anotar trechos dos livros que leio. Agora ele também está na mesa. Quando um acabar, uso o outro.
Mas essas formas de anotar não resolvem o meu principal problema, que foi a outra orientação do professor: revisitar as anotações.
No bloco de notas é mais fácil. Como eu coloco quase todas as ideias nele, vez ou outra acontece de um texto da newsletter surgir ali. Já que escrevo regularmente pra cá, sempre dou uma “folheada” no que tem nele.
Mas não se engane: a lista de notas não tem fim e eu não consigo reler todas. Deve ter coisa de uns 3, 4 anos atrás, que eu não consigo revisitar com frequência. Inclusive, uma das minhas tarefas para fazer no futuro breve é pegar esses arremedos de textos e passar pra pasta que tenho no one drive (outra que é infinita, mas não vamos falar dela agora porque não quero surtar).
Os cadernos eu dou uma folheada sempre que anoto algo novo. Também não dá pra ver tudo de uma vez, mas estão lá. Me julgando, claro.
A conclusão desse texto é que, mesmo me faltando disciplina e foco, eu consegui treinar meu lado criativo. No início foi um saco, até no app eu sofri. Quando trabalhava no tribunal, minha bolsa era cheia de papéis rasgados com anotações que eu fazia durante o dia. Até a agenda que eu usava nas reuniões de lá era cheia de observações aleatórias. A maior parte delas tenho certeza que perdi.
Mas não me sinto mal por isso. A criatividade não me amedronta mais, porque entendi como nossa relação funciona: precisa ser leve. Tem momentos em que eu sento na cadeira e me esforço para terminar um texto, planejar um romance. E tem momentos em que fazer isso é um saco, mas necessário. E eu só consigo fazer essas coisas hoje por todos os anos que passei observando o mundo ao meu redor, treinando escrita, anotando ideias, lembrando de anotar, perdendo anotações, abrindo o google keep no meio das reuniões, acordando 3h da manhã com uma ideia, passando raiva debaixo do chuveiro porque não levei o celular pro banheiro…
Anotar é importante. Eu anoto. Não tudo, não do jeito que eu queria anotar, mas anoto.
Mas o mais importante mesmo é observar. Tudo, desde o ônibus quase batendo na moto e que causou comoção na calçada até a cor da unha da pessoa que está ao seu lado na sala de espera do médico.
Você pode ou não anotar essas observações. Pode ou não usar esses detalhes depois, em um texto.
Mas você observou.
E a gente aprende muita coisa observando. Trocar lâmpada, lavar vasilha, cozinhar, falar, andar, brincar com o cachorro… E, pasmem: aprendemos até a criatividade.



Excelente! Acho que um complemento possível a essa prática é o de desapegar de ideias. Nem tudo precisa virar texto, nem todas as coisas somos nós que vamos escrever.
Muito bom! Me identifiquei bastante. Não anoto com tanta frequência quanto você, mas anoto. 😉