A literatura é cruel
baseado em fatos reais verdadeiros oficiais
Em um evento no interior de Minas você tem duas mesas de autógrafo, uma ao lado da outra, dois autores de nichos distintos. Completamente diferentes e desconhecidos um para o outro.
A primeira mesa é disputada. Tem fila, pessoas tirando fotos, conversas e risadas de muita gente engravatada.
A outra, não. Tem alguns livros, o autor sentado, alguém acompanhando (um familiar, provavelmente) ora mexendo no celular, ora arrumando tudo pra capa ficar mais à vista. Ele espera mais do que assina. Sorri quando um ou outro gato pingado se interessa. Eles se aproximam, alguns compram o livro, pedem autógrafo, tiram uma foto, conversam um pouco e o leitor vai embora.
O primeiro autor é local. Morou na cidade a vida inteira, tem um milhão de contatos, fala do seu livro nas reuniões de escola do filho, na igreja e no bar. Cidadão respeitável, pilar da comunidade, intelectual. Conseguiu contratar a impressão do livro a tempo do evento, maravilha.
O outro autor... Não sabemos. O que sabemos é que ele fez uma palestra no auditório meio vazio e estava lá, observando mais do que assinando. Escritores são bons nisso. Será que ele imaginava?
O primeiro autor foi a um bar, comemorar o sucesso do lançamento, rodeado de amigos.
O outro, acho que voltou pra casa. Talvez sentindo falta do carregador, talvez fazendo uma lista de tarefas pra semana seguinte. Talvez pensando nas cláusulas que o contrato deveria ter…
Será que ele se deu conta da mesma coisa que eu? A literatura é cruel. Um livro é um texto, não um rosto. Marcamos e citamos frases, soletramos o nome complicado do autor e imaginamos como deve ser passar horas discutindo a história que ele criou.
Mas não vemos seu rosto.
Se não buscamos nas redes sociais, nunca vamos saber se ele gosta de música, se tem filhos, se já viajou pra França, se… sei lá, se ele gosta de gatos.
A foto da orelha pode ser ou não vista, pode ser ou não atual, pode ter ou não photoshop. Às vezes, o livro nem tem orelha.
Se não for anunciado em eventos, como vamos saber que aquele rosto corresponde ao autor daquela história que tanto gostamos?
Em 2023, na FLIP, conheci duas autoras renomadas no gênero do romance hot: Sue Hecker e Juliana Dantas.
Juliana falava sobre networking e divulgação quando eu cheguei na conversa. Ela se apresentou “Eu sou a Juliana, sou escritora”, perguntou meu nome “Bianca, também sou escritora, mas ainda não publiquei meu livro” e apresentou quem estava com ela “Essa é a Sue”.
Eu sabia quem a Sue é. O filme do livro dela foi pra Netflix, ficou no TOP 1 nacional, talvez mundial. Eu conhecia seu rosto, apareceu em muitos instagram’s que eu acompanhava.
Conversamos, tiramos fotos fiquei encantada com a generosidade das duas. Era a minha primeira FLIP e eu queria ficar naquele lugar o resto da vida.
Só depois de muitos minutos de conversa que eu me dei conta de que a Juliana era a Juliana Dantas. Autora do livro “O que escolhemos esquecer”, que me fez passar uma noite inteira em claro pra terminar a história. Pouquíssimos livros fizeram isso comigo, menos ainda enquanto eu trabalhava no tribunal.
A literatura é cruel. Leitores não fazem o cara-crachá, nem têm essa obrigação. A obra é maior que a pessoa, e que bom! Não queremos que um livro seja conhecido por nossa causa, mas que nós sejamos conhecidas por causa do livro.
A arte é maior que o artista. E espero que seja sempre assim.
Mas, às vezes, isso é uma merda.
Lembra dos dois autores no interior de Minas Gerais? O primeiro autor apareceu em entrevistas nos jornais locais, ficou com o engajamento aquecido pelos vários comentários e reposts do evento. Provavelmente teve lucro com a venda dos livros e alguns anos depois vai pedir uma nova tiragem, pra distribuir entre os novos amigos.
O outro autor, algum tempo depois, vendeu os direitos do livro pra uma adaptação de cinema. Sua história fez História. Com H maiúsculo mesmo. A história que ele contou foi a responsável pelo primeiro Oscar brasileiro.
Você já sabe: o outro autor era o Marcelo Rubens Paiva.
O primeiro: não sei.






Que texto! História maravilhosa e esse final… lindo!
Incrível! Sua crônica e a história.