Algumas coisas são assim mesmo:
tão especiais que nem viram texto.
Ao longo do tempo algumas sensações me provam que o Einstein sempre teve razão: o tempo é relativo. Tenho um acervo de dates ruins pra comprovar e, mais recentemente, um aplicativo de transporte.
Às 17h faltavam 13 minutos pro motorista chegar. O app jurando de pé junto que eu chegaria ao destino às 18h. Já são 17h51 e não estamos nem perto do destino.
A propósito, os 13 minutos de espera terminaram às 17h29.
Longe de mim querer ser especialista em números, meu negócio é a escrita, mas algo de errado não está certo. Já que tenho uns 20 minutos dentro desses 9 que faltam (agora 8), me resta escrever.
Sinto falta de escrever no ônibus. Agora que trabalho em home office, quase nunca uso o transporte público de BH. No uber não tem frase rabiscada no banco, nem gente berrando ao telefone. No máximo, tem o motorista cantando Cássia Eller como se fosse um cantor amador esperando uma dona de gravadora descobrir seu talento.
Pena, moço, eu sou escritora. Mas você pode virar um texto.
Até chegarmos ao destino, quem sabe, eu descubra uma característica sua que renda um personagem?
São 17:58. E não, não estou perto do meu destino.
Mas é BH, né, e é janeiro na cidade que se um pingo de chuva cair no asfalto, todos os motoristas automaticamente desaprendem a dirigir. Várias pessoas já me falaram que o trânsito aqui é o mais caótico do país. Não duvido.
Considerando o pouco que sei do assunto, em uma escala de 0 a 10, o quanto o caos de BH se aproxima das grandes cidades da Índia? Espero que uns 4, no máximo, pelo bem da nossa saúde mental.
São 18:02 e a Cássia quer um pouco de malandragem. O motorista também, mas ele não se parece com uma garotinha. Qual seria sua reação se eu perguntasse?
Às vezes tenho essas vontades de fazer algo aleatório sem sentido nenhum, só pra ver a reação das pessoas. Em casa é mais fácil, todo mundo já conhece minha maluquice, mas na rua os pensamentos intrusivos são só pensamentos mesmo.
Mas sei lá. Seria divertido chegar na frente de um pastor falando absurdos na igreja e soltar um: você não tem medo de ir pro inferno não??
Será que tirariam o demônio do meu corpo? Eu ganharia quanto de cachê?
Ah, merda, ok, assunto delicado, melhor mudar antes de ser cancelada. Ironicamente, chegou a música da Cássia que ela manda alguém morar com o diabo, que é imortal.
18:08, praça Raul Soares. Por que o GPS mandou passar pelo centro pra ir pro Santa Lúcia mesmo? Caminho mais rápido? O moço app de mobilidade tá mais maluco que o moço atravessando a rua, só pode.
Ah, esses dias fui à oftalmologista. Ainda tenho que escrever um conto sobre a tour da ziquizira que peguei no olho no fim de 2022, mas vai ficar pra depois. A doutora disse que eu tenho uma cicatriz na córnea e que o jeito de fazer sair é pingar um colírio 6 vezes ao dia durante 6 meses pra ver se dá certo.
Não, obrigada, já passei por isso antes e dispenso.
A cicatriz prejudica a minha visão, mas ela nunca foi muito boa mesmo. Os óculos seguirão aqui enquanto a cirurgia de correção não vem, então dane-se.
Pelo menos ela disse que eu posso voltar a usar lente. Sugeriu uma diferente: gelatinosa (eu usava a rígida, antes de tudo descambar) de uso único. Já que por motivos de trauma eu não quero mais usar todos os dias, ela é a mais segura, quase à prova de contaminação.
Tenho agonia de enfiar o dedo no olho pra tirar a lente? Tenho. Mas a gente se acostuma, já dizia Marina Colasanti.
Agora sim estou chegando. 18:18. Alguém pensando em mim, provavelmente a pessoa com quem combinei de me encontrar às 17h. Não, não é um homem. Esse tempo todo de atraso pra um date romântico eu já teria cancelado. Me faltam algumas paciências na vida.
Agora me veio a dúvida: como será essa tal de cicatriz? Como a médica conseguiu ver? Na luz normal mesmo, sem precisar daquele colírio amarelo? Será que se eu tirar foto aparece?
Reconheci o CD (ainda falam isso?) das músicas da Cássia: acústico MTV. Ainda tem? Eu era apaixonada por esses acústicos, mais ainda pelo do Engenheiros do Hawaii. Fui ao show do Humberto que teve recentemente, ele cantou as músicas dos acústicos e foi maravilhoso. Ia virar crônica, mas eu comecei a escrever e o assunto descambou pra outro lado.
Mas algumas coisas são assim mesmo: tão especiais que nem viram texto.
18:28. Cheguei.



Tô aqui pensando em minha época de ônibus. Antes de me render à escrita durante os trajetos e enquanto fui evangélico, tinha dois tipos de comportamento: por vezes eu assumia o mesmo comportamento do motorista que estava te levando e cantava, na ingenuidade de acreditar que as pessoas estavam gostando; noutras ocasiões, eu pregava para a pessoa do lado. É sério. Eu virava para quem estava ao lado no banco e soltava a pergunta: "Você já ouviu falar de Jesus?" Pensa no absurdo da pergunta e também no diálogo que se seguia, pois eu era insistente. Mas felizmente um dia eu percebi a mancada e parei com isso. E assumi a prática de escrever durante os trajetos de ida e volta. A ironia da sua crônica é fina e cômica. A gente vai junto, fica irritado com o trânsito, com o APP e também acha graça.