Arte, afeto, qualidade, papel...
Reflexões sobre a arte e seu papel no mundo.
Uma das coisas que me disseram quando lancei Értom, foi que eu não romantizava o amor romântico. O comentário foi um elogio, a pessoa gostou quando eu não fiz, por exemplo, o beijo do Rafael e da Ângela virar um evento imenso, como é comum em livros de romance.
Assim como uns 40% do livro, esse detalhe não foi proposital. Transmiti minha forma menos idealizada de ver a vida quase que por osmose. Tem o frio na barriga, a tensão sexual, a vontade de passar a noite conversando. Mas também tem o pé no chão.
Acho que isso vem com a idade. Não que eu acreditasse em contos de fadas quando era adolescente (sempre fui cética quanto ao “felizes para sempre”), mas eu idealizava o tal do amor verdadeiro na minha cabeça e nas minhas fanfics.
Em “Értom”, os personagens se amam. Mas só o amor não é suficiente.
Esse fim de semana passei maratonando mais uma série de qualidade duvidosa: o verão que mudou a minha vida. Essa vai pra gaveta das séries com personagens que me irritaram.
São adolescentes, claro que eu me irritaria, mas enfim...
O enredo é basicamente o seguinte: a protagonista, Belly, gosta de dois irmãos e não sabe qual deles escolher pra passar o resto da vida.
Parece narrativa de romance hot? Parece. Mas pegaram a premissa e colocaram com uma roupagem adolescente. Nesse caso, também, os irmãos se amam. Brigam, porque irmãos brigam (e eu sei do que estou falando, tenho 4), mas se amam.
Aí tem o Jeremiah, o irmão bonzinho, bem-humorado, o cara legal com todo mundo. E o mais velho, Conrad, com pose de badboy que tá cagando e andando pra tudo, vive emburrado parecendo que ta com uma tora enfiada você sabe onde.
Adivinha por qual deles ela foi apaixonada a vida inteira.
Caso você pense no termo "badboy" pra definir o irmão mais velho, está enganado, pequeno gafanhoto. Ele é carinhoso e gentil, só estava passando por um período ruim por coisas que o enredo explica.
Há alguns anos, eu seria #teamconrad ao ponto de fazer edits com frases de efeito e postar no tumblr e essa coisa toda. Hoje, todo mundo da série me irritou.
1 - Belly, minha filha, toma vergonha nessa cara porque você tá cagando com a saúde mental dos dois. O Conrad faz cu doce e o Jeremiah não sabe o que quer. Tem mais homem no mundo, pelo amor de Deus.
2 - Conrad e Jeremiah, a Belly é chata e mimada e não vale a dor de cabeça e as brigas entre vocês. Tem mais mulher no mundo, pelo amor de Deus.
"Ah, Bianca, eles são adolescentes"
Yes, I know. Adolescentes são confusos e fazem merda. E me irritam.
Mas o que eu fiz? Maratonei a série. Cheguei na terceira temporada crendo que seria o fim do meu tormento pra terminar uma história quando descobri que a Dona Amazon não lançou todos os episódios ainda. Estão lançando um capítulo por semana, como os Maias faziam.
Agora eu estou ansiosa pra saber o final de uma história de adolescente que me faz raiva.
Ô inferno!
Lembra que eu falei lá em cima sobre a qualidade duvidosa? Pois é, será mesmo?
Para o quê serve a arte? Para ser bela, perfeita ou para afetar quem a toca?
Vamos ao exemplo extremo: Crepúsculo. De vez em quando eu maratono os filmes só por diversão. É meu porto seguro de consumo fútil. Todo mundo adora falar mal dos livros e dos filmes, mas muita gente adora assistir.
Por que é bom? Não.
Porque nos afeta.
E esse afetar pode ter infinitas razões: te deixa ansiosa, apaixonada, com medo, quentinho no coração, puta da vida, tem memória afetiva... nenhuma das possibilidades é "qualidade técnica impecável em todos os requisitos". Podemos analisar milimetricamente do que uma história é feita. Mas ela nos conquista mesmo pelo que é capaz de nos fazer sentir. Tendo vampiro que brilha ou não, sendo um besteirol com piada óbvia ou não, tendo susto besta do início ao fim ou não.
A técnica ajuda a intensificar esses sentimentos. Um personagem bem construído faz a gente sentir a dor dele ao invés de pensar “nossa, que incoerência do cacete!”.
Mas se a história causa sensações dentro do músculo que leva sangue para o resto do corpo, já cumpriu seu papel de arte.
E se você é uma daquelas pessoas que dizem que só consomem coisas realmente boas e aclamadas pela crítica e que vão te fazer pensar e refletir e ser uma pessoa melhor e pipipipopopo: não sabe o que tá perdendo. O entretenimento só pelo entretenimento é delicioso.
Agora, voltando pro assunto do badboy x bom moço, vou citar a magia profunda de outras duas séries clássicas e maratonadas pela autora que vos fala nos últimos anos: Smallville e Supernatural.
Quando eu era adolescente, achava o Superman um saco. Certinho demais, arrumado demais, idealista demais, gentleman demais. Gostava muito mais do Batman e, no caso de Smallville: do Oliver Queen (Arqueiro Verde). Posso mencionar também o Lex Luthor. Os três (Batman, Arqueiro e Lex) são antíteses do Superman. Têm defeitos, afastam as pessoas, erram pra caramba. Até os heróis têm um tempero de vilão.
Foi só mais tarde, estudando construção de personagens, que entendi que eram as várias camadas de personalidade que me causavam o fascínio fascinante que deixa gente ignorante (ou não) fascinada por anti-heróis e/ou vilões.
Isso vale para os irmãos Sam e Dean Winchester. Mesmo quando tenta ser mal, o Sam é o Sam. Bom moço, gentil, o cara bom e seguro do rolê, o arquétipo do inocente em muitos momentos. O Dean tem a pose de mal e, apesar da motivação "certa", faz merda o tempo inteiro e não se arrepende da maior parte delas.
Estou falando do início das séries, o que acontece depois é outra história.
A Bianca adolescente era apaixonada pelo Oliver Queen, pelo Bruce Wayne e pelo Dean Winchester. Até simpatizava com o Lex Luthor (a propósito, o melhor Lex é o Michael Rosenbaum até hoje).
A Bianca de agora, que reassistiu as séries e repensou toda a sua existência, ficou conversando com as personalidades e tentando entender quando é que caras como Clark Kent e Sam Winchester viraram a melhor opção.
O motivo eu sei: segurança. Eles inspiram confiança, não são carretas desgovernadas que, intencionalmente ou não, vão acabar com o psicológico das suas parceiras. Demonstram pelo menos o mínimo de responsabilidade afetiva e bom senso.
Agora, o momento em que a chave virou não sei.
A idade tem influência, não tenho dúvidas.
Junto com a minha vivência trabalhando com relacionamento abusivo, violência doméstica etc.
Mas acredito que a evolução do pensamento de uma sociedade inteira também contribuiu. Se não estivéssemos nessa época em que as relações entre pessoas são discutidas, talvez eu me sentisse atraída por um homem que puxa um pedaço de árvore e diz que é um predador e quer me matar.
Ok, o exemplo foi extremo e idiota, mas vocês entenderam.
Todas essas reflexões sobre a arte e seu papel no mundo ficaram rondando a minha cabeça durante muito tempo. Ainda vão ficar, porque é para isso que a arte serve também.
A arte nos afeta e isso é lindo.
A arte reflete a sociedade e isso é necessário.
E a arte influencia as pessoas.
Isso me assusta.


