Coach vibes
Sobre revisões, intervalos e comparações.
Em dezembro, terminei a quarta versão do romance e fiquei um tempo sem olhar pra ele. Calculo esses períodos de intervalo entre revisões da seguinte forma: quando eu começo a achar que tá tudo uma merda, é hora de fechar o arquivo e voltar mais tarde. Depois de duas semanas, um mês, sei lá. Quando minha cabeça estiver mais limpa e meu saco menos cheio.
E aí, no último sábado, rolou mais um encontro do nosso clube de escrita aqui de Belo Horizonte. Abri o arquivo, levei meu caderno de anotações, reli o relatório da leitura crítica e… não fiz nada.
Rascunhei textos aleatórios, conversei muito, mas a coragem/vontade de mexer no romance era negativa.
Não era o momento certo, não tão cedo. Mais uma aula de autoconhecimento que esse livro me deu: a necessidade de descansar entre as revisões.
Na primeira versão eu aprendi que não consigo escrever todos os dias, preciso de pequenos intervalos. Escrevia por dois dias e descansava um. Aí escrevia durante outros dois, três e descansava de novo. O plano inicial de terminar a primeira versão em um mês foi por água abaixo e eu finalizei em dois meses e meio. No início, me frustrei, mas algumas pessoas, bem mais experientes que eu, disseram que eu escrevi a primeira versão muito rápido.
Aí, eu chego à dúvida existencial do dia: com quem eu estou me comparando?
Com Stephen King e Nora Roberts, que escrevem um livro por minuto e trabalham com isso há 500 anos?
Com o chat GPT, que gera textos herméticos na velocidade da luz?
Com os meus colegas de pós-graduação que já têm uma carreira na literatura há mais tempo e vários livros publicados? Ou com os que ainda não fazem ideia do que querem da vida?
Todas essas comparações são erradas.
"Erro" é uma palavra forte, mas nesse caso é o termo correto.
Eu errei ao me comparar com outras pessoas, independente de quem seja ou do que faça. Não preciso correr atrás do resto do mundo, só preciso caminhar no meu próprio tempo.
E, se for para fazer comparações, que eu me compare com a Bianca de um ano atrás, que não fazia ideia do que ia escrever. Que não tinha uma rotina de escrita bem definida, que não conseguia nem falar em voz alta que era escritora.
Que eu me compare com a Bianca de 2021, que ficou com medo de entrar em depressão por achar que teria que detestar seu trabalho pelo resto da vida.
Que eu me compare com a Bianca de 2015, que seguiu o que esperavam dela e não teve coragem de peitar seu sonho.
Se for se comparar, se compare com a sua versão do passado, que era muito mais insegura e confusa que a de agora.


