Como pessoas que amam o que fazem se sentem
Sobre processos de escrita e processos de vida.
Quando eu tinha 16 anos, comecei o rascunho de um romance. Vi uma chamada de publicação aberta e pensei "é agora". Eu tinha vinte páginas, um resumo e um sonho. Mandei.
O retorno veio rápido. Hoje eu sei como fui privilegiada por receber um feedback em tempo hábil. O e-mail dizia que minha obra não havia sido aceita, mas que as portas estavam abertas para quando estivesse completa.
Nunca completei.
Mais de dez anos depois, isso deixa na boca um gosto agridoce. E eu detesto coisas agridoces. Eu tinha a faca, era só fazer o queijo. Em uma linha do tempo alternativa, em outro lugar do espaço-tempo, outra versão minha terminaria o romance e enviaria para a editora.
Mas eu fiquei com medo. "A literatura é tão importante pra mim que não quero correr o risco de dar errado.", lembro de ter dito.
Se você, leitor que ainda não desistiu das minhas divagações, algum dia viajar no tempo para a época da Bianca adolescente, favor dar um tapa na minha cara de 16 anos.
Corta para 12, 13 anos depois:
"Às vezes, acho que a minha vida no trabalho é chorar por causa do outro trabalho. É engraçado de um jeito bizarro, como é a vida, normalmente. Agora mesmo estou sentada na frente do computador, um ofício inacabado aberto de um lado e a página do canva do outro lado."
O trecho acima eu escrevi ontem.
Hoje, vi uma borboleta.
(Pronto, a louca das borboletas e dos sinais chegou.)
Também vi um vídeo da gabiisteca em que ela diz "viver o que eu não gosto me ajuda a construir algo que eu goste". Coincidência ou universo, esses dias tenho pensado que eu só estou trabalhando tanto na Bianca-escritora porque a Bianca-bacharel-em-direito surtou. Se eu não tivesse passado tanto tempo em um mundo que não era o meu, desistiria na primeira expectativa frustrada da literatura, que aconteceu semana passada, por sinal.
A Bianca de 16 anos, que enviou um arremedo de romance para uma editora e desanimou no "não", não teria peito (nem dinheiro) pra fazer o que estou fazendo hoje. Ela se doía com muita facilidade, era arrogante como todo escritor iniciante e idealista como todas as pessoas que perseguem um sonho.
Talvez, não ter incentivo de berço não tenha sido tão ruim. Criei uma casca que me prepara pro pior. Eu sei que vai dar certo, é uma certeza que vai muito além das borboletas no caminho e que eu nem entendo direito, mas estou disposta a aceitar os pequenos errados do processo.
É assim que as pessoas que fazem o que amam se sentem?
É uma experiência nova pra mim.
Pros momentos de desânimo, eu lembro de como me sentia deslocada na faculdade, de como nunca me encaixei de verdade no trabalho, da sensação de usar uma máscara em horário comercial. Eu converso com pessoas que sabem mais do que eu sobre esse admirável mundo novo, com amigas que acreditam mais em mim do que eu mesma.
Eu me encho das paixões alheias pela literatura e alimento a minha própria paixão.
Quando nem isso dá certo, eu escuto músicas tristes em loop até ficar feliz. Juro que dá certo, mas deve ser coisa minha, sei lá.
Depois que passa, eu faço a única coisa que sei fazer direito: escrevo.
(Ok, não é a única, mas eu sou escritora. Tenho licença poética para ser dramática.)


