Cuidado com os olhos, crianças
Cinco médicos, um olho e um nome estranho
Não me reconheço mais sem os óculos.
O que é bizarro, porque passei mais de dez anos usando lentes de contato 7 dias por semana. Eu tinha pavor de colocar do fundo de garrafa na cara. E olha que não faz muito tempo desde que lavei as mãos e coloquei as lentes dentro da solução própria para isso pela última vez: outubro de 2022.
Senta que hoje a news é longa...
Era final de outubro quando fechei os olhos e disse “nossa, a lente tá incomodando muito”. Eu estava no Tribunal e não era incomum de acontecer. Tinha meu estoque de soro fisiológico e solução pra lentes de contato na bolsa. Olhei de novo pro computador e não dava pra enxergar direito.
Tirei, lavei, recoloquei. Não resolveu.
Já eram quase 16 horas e minha chefe me mandou pra casa. Fui de uber, sem chance de pegar ônibus cega dos olhos.
Naquele fim de tarde, tirei as lentes pela última vez e não fazia ideia do quão simbólico era aquele momento.
A gente faz tanta coisa pela última vez sem nem se dar conta disso...
De noite, o incômodo não passou. Não era dor, mas tinha alguma coisa errada. Como eu sou neurótica com assuntos oftalmológicos desde sempre, fui pra emergência.
— É ceratite. — A médica disse. — Muito comum de acontecer, uma pequena lesão na córnea.
Incomodava mesmo, principalmente na luz, mas não era nada sério. Uns 3 a 4 dias pra melhorar. Me passou um colírio lubrificante e um outro, bem leve. Atestado de uns 4 dias e depois vida que segue.
Ah, eu não poderia usar lente nesse período, obviamente.
2 de novembro. Finados.
Lá estava eu na cadeira do pronto atendimento oftalmológico. Melhorou um pouco, mas depois piorou de novo. Expliquei tudo pro médico, ele pingou o colírio amarelo e ficou olhando no fundo do meu olho esquerdo como ninguém tinha olhado antes. Nem depois.
— É conjuntivite.
Mais uns dois colírios, mais uns 3 dias pra melhorar, mais tempo sem lente. Mais um atestado.
O terceiro médico ouviu tudo, olhou no fundo do meu olho também e me disse que a conjuntivite tinha passado. Mas a ceratite, não.
— Vou te encaminhar pra um especialista em córnea, porque você sendo usuária de lente é preocupante.
Parecia que eu passava os dias em um beco fumando crack. Mas, pelo menos, ele me mandou falar com alguém que entendia do meu vício.
O quarto médico parecia ser mais novo que eu e isso depois virou uma piada interna aqui em casa.
— Tem uma ceratite aí, mas já deveria ter passado. Vou te receitar colírio pra isso, isso e aquilo.
Também deixou várias recomendações: bebe água, fecha os olhos, usa menos computador e celular, dorme mais tempo… Tudo isso ajuda na recuperação da córnea.
Contei que precisava trabalhar e estudar e ele me sugeriu usar um tampão. Mas não era o ideal.
— Volta daqui uma semana.
No terceiro dia de tampão a pele da minha bochecha ficou ferida por causa do adesivo e eu fiz uma gambiarra com gaze e esparadrapo na lente dos óculos. Não resolveu.
Assisti as aulas do meu primeiro curso de escrita criativa com um olho aberto e outro fechado. Trabalhava quando dava e virei um morcego: ninguém podia acender a luz.
Ao invés de melhorar, piorou.
No primeiro retorno, o quarto médico me receitou outro colírio, manipulado. Era um corticoide mais forte. Durante a noite, eu passei a usar uma espécie de pomada pra córnea. Precisava pegar com o dedo uma bolinha do gel e passar dentro do olho. Sentiu agonia? Essa nem foi a pior parte.
Sou fraca pra remédio. Dormia umas 12 horas por dia quando comecei a usar corticoide, mas não achava ruim. De olhos fechados, não ardia.
No meu terceiro encontro com o quarto médico foi que nasceu a expressão “não confio em médicos que parecem mais novos que eu”. Apoiou o queixo na mão e franziu a testa.
— Eu não sei o que você tem não, Bianca…
Ah, obrigada, doutor, estou muito tranquila agora. Pelo menos tenho o olho direito.
— Não melhorou em nada…
— Se você não fala…
Respondi assim mesmo. Ele riu, eu ri, mas com vontade de chorar.
Ele me olhou no fundo do olho esquerdo e disse que desconfiava de uma ceratite específica. Precisava de fazer um exame, mas só por desencargo de consciência.
— Duvido que seja… Seus cuidados com as lentes são ótimos, mas é melhor fazer pra descartar.
Peguei a receita e fui caçar o tal do exame de acanthamoeba.
Conheci o quinto médico porque o tal exame era feito por um oftalmologista e o anterior não fazia, segundo a clínica. Minha mãe foi comigo nesse dia, o lado bruxa deve ter sentido que o buraco seria mais embaixo.
Sentei no banquinho, já preparada pra lenga lenga de sempre: contar tudo o que aconteceu, o que eu sentia, pinga colírio, pegar a recei…
— É acanthamoeba. — Pera, não tem receita? — Essa aparência de vidro sujo é de acantha, eu tenho certeza. — Ah, tem apelido o trem… — Você vai ao laboratório tal, falar com o fulano de tal, pega o material, traz pra mim logo depois, que já vamos fazer a raspagem e mandar pra análise.
— Mas tem chance de ser isso que o outro médico falou? — Eu já tava com o cu na mão, mas minha mãe queria confirmar. — Ele disse que era só pra descartar.
— Não vai descartar, é acanthamoeba. Por isso a gente precisa fazer o exame o mais rápido possível, pra começar o tratamento hoje.
Almocei guarda-chuva sem sal enquanto ligava pro laboratório. Eu não estava acostumada com essa velocidade toda, mesmo tendo plano de saúde. O dono do laboratório estava me esperando e ele não contribuiu pra missão “acalmar a paciente”.
— Semana passada ele me mandou uma paciente pra fazer o mesmo exame. Graças à Deus deu negativo. O seu vai ser negativo também.
— Ele disse que tem certeza que é.
— Bom… Então vou apressar o resultado pra você começar o tratamento o quanto antes.
Às 14 horas eu estava sentada no banquinho de novo, o médico virando meu olho do avesso.
— Vou pingar o colírio. É anestésico. Você não vai sentir nada agora. Mais tarde pode doer um pouco, mas vou te passar um remédio. Fica com o olho arregalado. Não fecha.
Sem sentir nada eu quase vomitei em cima dele.
Ocorre que o exame, que ele chamou de “raspagem” desde o início e eu não liguei os pontos, é uma (ora ora, Sherlock) raspagem.
Da córnea.
Com estilete.
Lembro da lâmina se aproximando em câmera lenta, subindo e descendo. Ele repetiu o processo umas 3 ou 4 vezes.
— Vou aproveitar e tirar o máximo que conseguir da acantha.
Relaxa, no seu tempo. Só me arruma uma sacola, pra se meu estômago sair pela boca?
Fiquei com o whatsapp do quinto médico. Ele me passou um instagram e um grupo de whatsapp com pessoas do país inteiro que têm acanthamoeba. Um dos colírios não é vendido no Brasil e o outro precisou ser manipulado. Vinha de São Paulo, porque em BH ninguém fazia também.
A recomendação foi “já olha pra comprar os colírios de uma vez, porque demora pra chegar. E se conseguir uns três frascos logo de cara, é bom. Você vai precisar de vários.”
Ele também me avisou que ia doer, porque o remédio mata a ameba, mas é tóxico pro olho.
No total, foram uns 8 frascos de cada.
Voltei pra casa com um mantra novo: pelo menos tenho o olho direito.
De noite, quase às 22 horas, o quinto médico ligou. (a propósito, o nome dele é Leonardo) O resultado do exame saiu, eu tinha ceratite por acanthamoeba. Me passou os colírios de novo, dosagem e disse que, do jeito que meu olho estava, eu tinha grande chance de não precisar de um transplante.
Nota da autora que vos fala: este texto será dividido em duas partes. Semana que vem eu conto o resto da saga.



Estou gostando; vou pra segunda.
Bem, li a primeira parte; vou pra segunda. Esou gostando.