Cuidado com os olhos, crianças
A segunda e última parte da minha saga com a ameba no olho
Caso você não tenha lido o texto anterior, recomendo que leia. Esse aqui é a continuação dele.
Antes...
De noite, quase às 22 horas, o quinto médico ligou (a propósito, o nome dele é Leonardo). O resultado do exame saiu, eu tinha ceratite por acanthamoeba. Me passou os colírios de novo, dosagem e disse que, do jeito que meu olho estava, eu tinha grande chance de não precisar de um transplante.
O médico me falou que a ceratite por acanthamoeba é grave. Me alertou (umas 350 vezes) da importância de ir atrás dos remédios logo. Também me indicou um especialista na tal da ameba e agendou pessoalmente minha consulta com ele pro dia seguinte.
O google me contou mais ou menos isso aqui:
A ceratite por Acanthamoeba é uma infecção rara, mas grave, da córnea causada por um tipo de ameba chamada Acanthamoeba. É mais comum em usuários de lentes de contato e pode levar a perda de visão se não for tratada adequadamente.
A Acanthamoeba é um organismo encontrado em água doce, solo e poeira, e pode contaminar soluções para lentes de contato, causando a infecção.
A infecção pode ocorrer em usuários de lentes de contato, especialmente aqueles que não seguem as práticas de higiene adequadas ou usam as lentes ao nadar.
Sintomas: dor ocular intensa, que pode ser desproporcional ao que se vê na avaliação, sensibilidade à luz (fotofobia), visão turva ou embaçada, olhos vermelhos, secreção ocular, inchaço das pálpebras.
Mas foi no grupo de whatsapp que eu entendi de verdade a gravidade da minha situação. Tinha umas 120 pessoas, todas portadoras da bicheira (é a minha vez de criar um apelido pra moça). Elas me consolaram quando entrei no grupo. Disse que tudo daria certo, que não precisava ter medo e que aquele era um grupo de apoio. E eu poderia tirar minhas dúvidas com eles, porque muitos oftalmologistas não conheciam essa doença.
Imaginem o meu desespero ao descobrir que nem os médicos sabiam o que era.
Tinha pessoas em tratamento há mais de dois anos.
Tinha gente que mandava mensagem de madrugada porque não conseguia dormir por causa da dor.
Também tinha doação dos colírios (foi assim que consegui os meus) e orientações para como lidar com a dor.
A grande maioria das pessoas ali tinham feito transplante de córnea.
Outra grande parte precisava do transplante.
Gente que viajava pra São Paulo pra tratar porque no seu estado ninguém conhecia, que teve acantha nos dois olhos, que perdeu a visão, que recebeu alta e depois de um tempo a bicheira voltou…
Faço a seguinte analogia: Acanthamoeba é uma ameba que vai comendo a córnea. Onde ela come muito, você tem úlcera de córnea (uma mancha branca que prejudica a visão permanentemente). Além disso, é como se fosse o piolho e a lêndea: tem a ameba e os ovos dela. Um dos colírios (o mais tóxico, que não vende no Brasil) mata o piolho. O outro, mata a lêndea.
Eu não sou profissional da saúde (amém), então essa definição não é científica. Foi só uma forma que eu encontrei de facilitar meu próprio entendimento.
Um dos depoimentos que mais me marcaram foi o de um homem que estava na fila do transplante. Contou que trataram a doença como se fosse herpes e um mês depois, quando descobriram que o diagnóstico estava errado, ele já tinha perdido a visão e precisava do transplante.
Um mês foi o tempo que eu levei indo de médico em médico, tentando descobrir o que eu tinha. Traçar esse paralelo era inevitável e foi aí que o wifi parou de passar com força. Em outras palavras: a ficha caiu.
Mas por fora eu segurava as pontas e agia “naturalmente”, porque é o que eu faço. Um dia de cada vez, uma gota de colírio por vez. O mantra era “vai passar”.
Lembra que o quinto médico indicou outro? Na consulta (um encaixe feito de última hora) fiquei um tempo esperando. Primeiro para pagar (o plano não cobria essa, nem os exames de diagnóstico de acantha) e, depois, pra ser atendida. Nesse tempo de espera, eu estava sem os óculos, de olhos fechados quase o tempo inteiro, por causa da fotofobia. Junte isso aos 7 graus de miopia e 1,5 de astigmatismo e o resultado é que só enxergo vultos.
Um vulto em específico passou várias vezes por onde eu estava. Esse mesmo vulto chamou meu nome e fomos (minha mãe e eu) até o consultório. Lá dentro, coloquei os óculos e vi o médico n. 4. O mesmo que pediu o exame só pra descartar acantha e que não fazia a tal da raspagem. Minha mãe contou a saga até o diagnóstico enquanto, na minha cabeça, as personalidades pontuavam as seguintes questões:
1. Eu paguei uma consulta pra me consultar com o médico que eu já estava vendo toda semana;
2. O nome do especialista que o doutor n. 5 mencionou não era o dele;
3. Dá pra pedir devolução dos dinheiros?
4. Ele realmente parecia bem mais novo que eu.
5. Como contar pra Dona Mamãe que o médico era o mesmo de antes sem dar muito na cara?
Como sutileza nunca foi meu ponto forte, falei de uma vez que ele tinha me atendido na clínica XPTO. E expliquei que procurei o outro profissional porque a clínica disse que ele não fazia o exame e pipipi popopo…
Precisava de justificativa? Claro que não, mas a gente tem essa mania irritante de se desculpar...
— Mas eu faço o exame. — Obrigada por me contar isso só agora, doutor moço.
Em determinado momento ele chamou o especialista real oficial (aquele que o Dr. n. 5 indicou) e eles confirmaram o que a gente já sabia. Bicheira, colírios, me pediu o link do grupo de whatsapp, porque ele mesmo não conhecia… Nada novo sob o sol, ainda bem. Eu não aguentava mais surpresas.
E lembra que eu não sentia dor? Pois é. Um dos sintomas da acanthamoeba é uma dor muito forte, que não combina com a aparência do olho. Até então, eu sentia apenas muito incômodo e sensibilidade à luz.
Aí os colírios chegaram.
E a minha definição de dor foi atualizada.
As pessoas do grupo tinham dito que o colírio machucava, que era como se pingassem fogo no olho, que no início é complicado... A teoria já estava toda na minha cabeça. Entendi que ia doer, que ia demorar, que meu olho ficaria inchado e vermelho e sensível e nojento…
Mas, meus amigos…
Puta que pariu.
Pra começo de conversa: eu tinha que pingar 1 gota do trem a cada 2 horas, durante uma semana. Inclusive de madrugada.
— Não deixa de pingar de madrugada, Bianca, é importante. — É claro que obedeci, brincar com a possibilidade de um transplante de córnea não me atrai.
Umas três semanas entre novembro e dezembro de 2022 foram apagadas da minha memória. Tudo o que eu tenho são alguns flashes:
1. Eu acordava pra pingar o colírio e ficava tremendo igual vara verde porque doía. Depois, tremia igual vara verde pensando na dor que viria quando eu pingasse de novo.
2. No grupo, sugeriram que eu usasse, antes do remédio, uma gota do lubrificante, pra aliviar. Funcionou umas duas vezes só. Depois, o lubrificante doía também.
3. Outra sugestão foi colocar uma bolsa de gelo no olho. Eu dormia (tentava dormir, na verdade) com gelo na cara. Não funcionava.
4. Tinha receita de remédio pra dor também, oral. Não funcionava. No grupo, tinha gente que tomava morfina e ainda assim não aliviava. Não precisei, evito ao máximo tomar remédio e meu organismo já estava bem bagunçado àquela altura. Aguentei a dor. Nem firme, nem forte, mas aguentei.
5. Fiz um caderno de “razões para agradecer”. Anotava, todos os dias, um motivo pra ser grata, não importava o quão bobo e pequeno fosse. Juro que tem uma anotação sobre ser grata por conseguir abrir o olho inchado. O caderno e o pensamento de que eu precisava dos colírios pra ficar melhor eram o que me guiavam durante esse tempo.
Não lembro de comer, ir ao banheiro, tomar banho, conversar… Nessa mesma época minha chefe fez um pedido para que o Tribunal me autorizasse a trabalhar de casa. Anexou laudo do médico, exame, foto do olho e os carai. Foi negado.
Meu olho ficou inchado e vermelho, parecia que eu tinha tomado uma porrada de um lutador de UFC defendendo o cinturão que nunca melhorava.
Tenho algumas fotos, mas vou poupá-los desse trauma.
Eu ia ao médico uma vez por semana.
Cheguei a ficar um tempo acompanhando com os médicos 4 e 5, mas o 4 sumiu depois do recesso e nunca mais respondeu.
Aos poucos, foi diminuindo a dosagem do colírio do capeta. O intervalo entre o uso passou para 3, 4 e, depois, 6 horas. A medida que a bicheira ia morrendo a dor diminuía. No total, foram 7 meses de tratamento. Só em abril que passei a usar o colírio só duas vezes por dia e em maio eu fiz o exame que descobre se a bicheira foi embora ou não: microscopia confocal. É tipo um ultrassom do olho. O médico encosta um trem de silicone na córnea e vai mexendo.
Melhor que a lâmina do bisturi da primeira vez...
Fiz o exame em São Paulo (pra variar: não tinha em BH e o plano não cobria) e no dia 20 de junho de 2023, meu aniversário, o Dr. Leonardo me deu alta.
Desde então eu não uso lentes (penso em voltar, mas só um pouco) e meu olho arde e fica menor sempre que o tempo fica seco. Além disso, o único efeito colateral foi uma mancha vermelha que aparece de vez em quando.
Queria ter uma grande mensagem de otimismo pra finalizar esse texto, mas a realidade é que eu detesto esse tipo de coisa.
E a real real mesmo é que esse texto é pra mim mais do que pra vocês. Mesmo depois de tanto tempo, não conseguia escrever sobre a bicheira. Logo eu, que exorcizei meu pai em um livro, não escrevia sobre o dia que eu quase perdi minha córnea.
Mas esse mês fui tirar fotos de formatura com meu irmão e precisei ficar sem os óculos depois de um milhão de anos. Foi o gatilho, sinal do universo, chamado: chegou a hora. Algo me disse que eu estava pronta e eis-me aqui. Fechando ciclos em palavras.
E o texto saiu fácil, de uma vez só, as duas partes.
Talvez, a grande moral da história seja o que todo escritor diz desde que o mundo é mundo:
A escrita cura.
E os colírios, também.



Santo Daimenão dos Colírios, que suplício!! E tudo por causa de uma ínfima ameba, que deveria morrer com uma dosezinha de penicilina. É revoltante a resiliência de certos micróbios, não é não? Ah, se algo dessa resiliência fosse transferida para o hospedeiro no processo infeccioso teríamos pelo menos um bônus para compensar tanto sofrimento... Bom saber que o problema foi superado com remédios e crônicas. 😉