Ela é muito inteligente
só precisa confiar mais em si mesma.
Minha turma do primeiro ano do Ensino Médio resolveu fazer um inimigo oculto. Éramos poucos, no máximo 15 alunos. Crias de escola pequena, a maior parte estudou no mesmo lugar durante anos; tínhamos intimidade o suficiente para se ofender sem estragar a amizade. Um bando de adolescentes que construíram uma comunidade saudável e harmoniosa. Até hoje me surpreendo com isso.
A ideia foi tão bem recebida que até alguns professores participaram. E foi justamente um deles que me tirou.
Robson. Professor de robótica (é, eu tive aula de robótica na escola), formado em Ciências da Computação e estudante de direito. Um nerd comum: óculos, calça jeans, sapatênis e camisa quadriculada. No fatídico dia, ele começou a falar sobre seu amigo secreto e eu gelei:
— A pessoa que eu tirei, vai odiar o presente.
E colocou uma mini bandeira do atlético mineiro em cima da mesa. Ele era atleticano doente (talvez ainda seja) e eu, cruzeirense (ainda sou, mas com muito menos entusiasmo).
A minha versão de 14, 15 anos era a torcedora mais assídua da sala, a que trocava provocações com todos os atleticanos só pela diversão de esfregar o 6 a 1 na cara de alguém. Bons tempos…
E o professor, antes revelar meu nome, falou das minhas notas e do meu comprometimento. Talvez a turma toda já soubesse que eu era a amiga oculta, mas ele continuou falando por um tempo. Até que chegou em uma das frases mais marcantes que já ouvi na vida:
— Ela é muito inteligente, só precisa confiar mais em si mesma.
Depois, ele me entregou o pacote do presente e eu não quis abrir, achando que fosse algo do atlético. Para a minha surpresa e alegria, era um chaveiro: uma letra “B” azul celeste decorada com o símbolo do cruzeiro. Uso até hoje.
Ao longo dos anos seguintes, em várias ocasiões, voltei àquele dia.
Ela é muito inteligente, só precisa confiar mais em si mesma.
Robson nem faz ideia, mas a frase marcou a minha vida. Criou uma espécie de mantra, que eu repito sempre que algo bom acontece e eu fico surpresa.
Preciso confiar mais em mim mesma.
Recentemente, lembrei-me dela durante a minha participação no Encontro Nacional de Escritoras, quando recebi o relatório da leitura crítica do meu livro e quando fui convidada para falar na FLIP/2023.
Preciso confiar mais em mim mesma.
E me lembrei desse momento, de novo, no último encontro da Oficina de TCC, na pós-graduação.
Durante os comentários sobre o meu texto, o orientador disse: você domina os diálogos.
Fiquei em choque, tem acontecido muito ultimamente.
Eu? Domino os diálogos?
Peraí, mundo, para de girar que eu tô tonta.
Explico: tenho algumas inseguranças relacionadas à escrita. Aos poucos estou aprendendo enxergar minhas próprias palavras por outro prisma. Não estou mais na fase “tudo o que eu escrevo é uma merda”, mas não tenho confiança de dizer que tudo o que eu escrevo é bom. Apesar disso, tem alguns aspectos que me… atormentam.
Sutileza, por exemplo, é um deles. Eu não gosto de explicar tudo timtim por timtim, detesto livros que têm um ar professoral, que resolvem explicar a vida, o universo e tudo o mais. Por causa disso, tenho medo de escrever de menos e ficarem algumas lacunas que o leitor não consegue preencher. Coisa de geminiana, talvez.
Mas, dentre todas as minhas inseguranças na escrita, a que mais me atormenta são os diálogos. Porque os diálogos conseguem fazer com que o leitor deslize pela narrativa sem nem perceber. E conseguem fazer o leitor abandonar o livro. Depois de tantos anos lendo tanto, aprendi a reconhecer qual dos dois papéis um diálogo faz em um texto.
Só não aprendi a reconhecer no meu texto.
E aí, veio o choque. E o lembrete:
Preciso confiar mais em mim mesma.


