Eu não choro todo dia
Ah, o mundo…
De todos os memes que coleciono sendo uma visitante do mundo da internet (e trabalhando nessa moça), acho que o meu favorito é “O mundo não gira, capota”. E o mais verdadeiro.
Carma, lei do retorno, da física, justiça divina, os humilhados sendo exaltados (e vice-versa)… Chame do que quiser. O ponto aqui é que é real. Ontem foi um dia que a minha trajetória inteira pelo mundo da literatura passou na minha frente. Desde o início mesmo (a primeira poesia, aos 10 anos), passando pelas fanfics, pelos textos autorais, pela faculdade de direito, pelo romance que nunca terminei, cursos, pós-graduações, burn out… ontem eu vi isso tudo e pensei: a vida até que presta, né, quando a gente tem um propósito.
Escrevendo esse texto, lembrei de um episódio interessante. Aos 20, 21, no meu primeiro mês de estágio no Tribunal de Justiça, conheci uma jovem caloura da faculdade de direito da UFMG. Eu estava lá para assistir um ensaio aberto de um espetáculo teatral e dizer se ele valia o investimento pro setor em que eu trabalhava. O espetáculo seria apresentado em escolas, para conscientizar os adolescentes a respeito de violência contra a mulher. Não dizem que o diabo é ardiloso? Acho que essa foi uma forma que ele teve de me enganar, mostrando que direito e arte poderiam se encontrar.
Não me entendam mal, eles podem. Mas morar no direito e visitar a arte não é o bastante pra mim. Gosto muito mais do contrário.
Mas o assunto aqui é outro.
A jovem caloura do Direito estava lá por algo que eu reconheci imediatamente. Era atriz, mas abriu mão de ser artista pra ter dinheiro e prestígio. Ela até tentou o vestibular de artes cênicas, mas não passou. O professor que não aprovou sua apresentação foi, inclusive, o diretor do tal espetáculo.
Ah, o mundo…
No final, fomos para os bastidores, conhecer o projeto, os atores, a estrutura por trás daquele universo arquitetado para impressionar.
A moça foi junto. Tinha 17 anos, a mesma idade que eu tinha quando entrei na faculdade. Lembro de ter me achado muito madura, a adulta que tomou a mesma decisão que ela, anos antes.
Em certo momento da conversa, ela falou sobre uma frase da Fernanda Montenegro. Não lembro ao certo como era, mas a ideia geral era que se uma pessoa chorasse por ficar longe do teatro, aquela era a vocação dela.
Depois de parafrasear Dona Fernanda, a garota emendou:
— E eu choro todo dia.
É provável que ela nem se lembre de mim. Que aquele dia seja um dos muitos que foram apagados pelo tempo. Mas eu lembro dele constantemente.
Primeiro porque eu era idiota. Quando ela disse que chorava todos os dias, eu pensei “que exagero!”. De cima dos saltos, minha vida estava encaminhada. Faculdade, estágio, uma carreira de sucesso no ramo jurídico.
Nas horas vagas, eu escreveria. Publicaria um livro, quem sabe?
Sempre me orgulhei de ser uma pessoa prática. E uma pessoa prática pensa com a cabeça: arte não dava dinheiro. O direito, sim.
Segundo porque eu era idiota. O universo estava me mandando um sinal, uma espécie de presságio pelo que eu passaria dali alguns anos. A única diferença entre a garota e eu era que ela aceitou sua vocação e sofreu mais cedo.
3, 4 anos depois daquele dia eu me peguei pensando na menina. Lá estava eu, chorando todos os dias porque fiquei longe da arte.
Ah, o mundo…
Nos dias de glória, eu lembro desse episódio, das duas meninas. De quem eu era, da mulher que me tornei. Acho que foi por elas que eu criei um Clube de Escritores. Pra contar pras artistas pré-vestibulandas que elas não precisam pensar só com a cabeça.
Nos dias de luta, faço questão de revisitar os momentos mais desesperadores, em que eu chorava todos os dias. Eu não sou mais aquela pessoa que não enxergava luz, que achou que sua vida seria resumida em um emprego em órgão público, sorrindo e acenando todos os dias.
Eu to muito longe dela.
E isso me basta.



O mundo exige tanto da gente, até os nossos sonhos. Precisamos de muita coragem pra não entregá-los.
Mais um dos bons. Lembrei de um desejo da adolescência relativo à futura profissão, abafado por eu achar que não me cabia pq eu quem não cabia nele. O tempo passou e muitas coisas boas e ruins aconteceram pq fiz escolhas ao avesso desse meu desejo. Até que, depois de uma suspensão interna, revi e refiz a vida, agora sim dando lugar, vez e voz àquele desejo. E fui feliz. 🙂 😉