Fiscal de Livros x Confort Books
Alguns livros, assim como o Natal, têm gosto de lar.
Já comentei com algumas pessoas que, agora que vejo a escrita como carreira, leio menos. Os meus mais de cem livros por ano caíram para 76 (talvez 77) e em 2024 esse número pode cair mais ainda.
Eu sei, mais de 70 livros por ano é muita coisa, mas a questão é que minhas leituras diminuíram porque em algum lugar no multiverso do meu cérebro ler se tornou trabalho. Há algum tempo eu não conseguia pegar um livro e desfrutar com a mesma intensidade de quando eu tinha 12, 15, 20, 25 anos. Agora, eu sou crítica, encontro cabelo em ovo, critico os personagens e a escolha de palavras da autora ou tradutora. Julgo o tipo de cola da lombada e a inexistência de colofão. Caço órfãs e viúvas como quem fica parada com uma raquete de matar pernilongo na mão, esperando o momento exato do ataque.
Confesso que passei alguns meses nesse modo fiscal de livros. Minha mente não desligava e mesmo os livros mais divertidos tinham um defeito a ser apontado.
E nós sabemos que todo livro tem.
Mas nesse fim de ano eu peguei pra ler "Retrato Mortal", da J. D. Robb (pseudônimo da Nora Roberts). O décimo sexto de sua série, escrita pela primeira de seu nome: minha escritora favorita da adolescência. Uma das poucas certezas que tenho na vida é a de que vou desfrutar dos livros da Nora, encontrando defeitos ou não.
Não, o livro não é perfeito. Mas voltar à minha série favorita da vida desencadeia uma reação de prazer fácil que raramente sinto. Escrevi no Instagram essa semana que natal tem gosto de lar, e ler minhas autoras favoritas da adolescência me traz essa mesma sensação: estou em casa, segura e protegida do mundo cruel que existe lá fora.
E essa sensação me fez sorrir do início ao fim do livro.


