Igual, mas diferente
Texto escrito no dia 30 de setembro de 2025
9 meses depois, aqui estou no mesmo ônibus que pegava para ir e voltar do Tribunal. Saí lá de perto mesmo, passei em frente ao prédio que eu trabalhei por 8 anos e tô fazendo o caminho de casa, de novo.
Até o desenho no banco na minha frente é o mesmo, redireciona pra um instagram que não visitei. Algumas coisas nunca mudam.
No meu fone de ouvido está tocando uma música triste que me deixa feliz e eu estou escrevendo essa crônica no bloco de notas do celular.
Algumas coisas nunca mudam.
Enquanto eu esperava pelo ônibus, uma senhora de olhos claros me pediu ajuda para colocar um cacho de bananas dentro de uma ecobag. “Pedi pra um homem ajudar, mas ele tava tão bêbado que nem conseguiu segurar a alça da bolsa”. Centro de cidade grande não muda também.
No fone, começou a tocar penhasco, da Luiza Sonza. Quando lançou eu ouvia em looping, indo e voltando do trabalho. É uma sensação curiosa essa, de repetir coisas que eu fazia em outra vida.
Não que eu seja outra pessoa, nada disso. Lembro bem de quando eu me sentava nessa mesma linha de ônibus e lutava contra a vontade de chorar porque tinha medo de não parar mais. Era um desespero que ainda dói na pele só de pensar.
Me pergunto se algum dia vou esquecer desses detalhes, espero que não. Porque quando as coisas ficarem difíceis na literatura, e elas não têm sido fáceis, eu vou lembrar de quando era bem pior, de quando eu queria estar exatamente onde eu estou.
E onde é que eu estou?
Subindo a Av. Augusto de Lima, dentro do ônibus que eu pegava todos os dias para ir e voltar do trabalho. Pensando que já tem quase 10 meses que eu larguei o direito pra viver de arte e ainda parece que foi ontem.
Pensando na leitura crítica que tenho que entregar, no Sarau do Clube de Escritores que acontecerá no dia 1° de novembro, na viagem pra Uberlândia dia 18, no próximo encontro do clube que é nesse sábado, na aula do curso de roteiro que eu preciso assistir, nos planos que eu quero tirar do papel em 2026.
E onde é que eu estou?
No exato lugar que eu queria estar ano passado.
E caminhando pra onde quero estar ano que vem. E em todos os outros que vierem além.
P.S. Quando eu ainda trabalhava no tribunal, descia em um ponto afastado de casa e ligava pro meu pai, pra saber se ele estava passando por lá e se poderia me buscar.
Vou ligar pra ele quando eu chegar, só pra ver a reação. Quem sabe ganho uma carona?



As cosias talvez nunca serão fáceis, mas agora cada desafio vencido tem sido para você e por você. Não é mais pelos outros. Nem para os outros. Quero dizer, a gente escrever para as outras pessoas, mas primeiro pra gente mesmo. E isso é maravilhoso. É bom ler que você sente que está onde queria estar. É estimulante. Continuo por aqui, torcendo.