Mães
e viagens
Gosto de observar como as pessoas funcionam, como organizam (ou não) as coisas. Em aeroportos, eu me delicio.
O moço à minha frente está com a cabeça debruçada sobre um livro. Não consegui ler o título. A mala marrom, básica, alinhada ao lado das suas pernas, no espaço exato entre duas cadeiras, pra não atrapalhar quem pode se sentar ao seu lado.
Do lado de cá, do meu lado direito, um homem com o notebook aberto conversa ao celular. "Vi que nasceram gêmeos, né? Um deles acaba não mamando o colostro, então é bom fazer aquele protocolo..." daí pra frente eu me perdi. Deve ser médico. Ele deixou a blusa cair quando foi pegar uma maçã. Deixou os óculos caírem quando tirou o notebook da mochila. E a mochila caiu quando ele a colocou no chão. Ficou por lá.
Uma criança tropeçou na mochila. Ela passeava montada em sua mala/cavalo-de-pau pós-moderno. A mãe segurou a filha e pediu desculpas. Aposto que nem notou a ironia de pedir desculpas em nome da criança que tropeçou em uma mochila jogada de qualquer jeito no meio do caminho. "Tudo bem", foi a resposta.
Quase sempre um homem. Quase sempre uma mulher.
Instantes depois, outra mulher se aproximou e recolheu a mochila do chão. Sentou-se entre mim e o homem e ofereceu um prato com queijo, goiabada, pão de queijo, bolo e um copo de suco. "Não tinha iogurte?" Foi a resposta.
No voo, uma família de 5 pessoas estava na fileira à minha frente. Dois adolescentes, uma criança, pai e mãe. A criança insistiu em ficar com o pai e os adolescentes disseram que a janela seria da mãe. O mais velho pegou seu lugar antes da hora, no corredor. Quando a irmã e a mãe pediram para ele se levantar, "é só passar" foi a resposta. A menina resmungou um xingamento e a matriarca da família elevou o tom de voz o suficiente pra duas ou três cabeças se virarem. Ele se levantou e todos se acomodaram pra uma hora e meia de discussões entre os irmãos e uma sinfonia de "Manhêê" ritmado e constante.
"Por que você não chama seu pai?! Ele tá do seu lado!!"
"Só muda de idade e endereço..." ouvi alguém dizer.
No segundo voo, fiquei ao lado de pai e filho. O menino tinha uns 5, 6 anos. Passou a viagem calado, olhando as nuvens ou vendo algum desenho no tablet. Só quando aterrissamos e chegamos na fase eterna de esperar liberarem as portas perguntou ao pai o que iriam comer.
Do lado de cá, a minha pergunta é diferente: a fórmula mágica do silêncio é a ausência da mãe?


