Mais alívio que medo
No dia que eu pedi demissão, os momentos ruins dos últimos anos ficaram pra trás.
Eu planejei minha demissão como quem se prepara pra cometer um crime. Escrevi e-mails, despedidas, tracei estratégias, fiz contas, cronometrei semanas, horas, minutos. Naquele dia, acordei aliviada, feliz. Copiei os textos e enviei. Uma ou duas lágrimas caíram. De alívio, de medo.
Mais alívio que medo.
Um dia antes, chorei de doer a cabeça. A decisão foi tomada há meses, mas a fase de apertar o play era nova. Escrevi os e-mails, as mensagens de despedida, arrumei as coroas de flores e as faixas de boas-vindas. Deixei pra resolver (resolver mesmo) no dia seguinte.
Dois dias antes, foi o primeiro dia do ano. Arrumando as coisas que acumulei em 12 meses, encontrei uma foto minha de quando era criança. Do meu lado, um leão de pelúcia: o Simba. Olhei pra estante e lá estava o Simba, (mais velho, detonado e empoeirado) me olhando.
Eu ainda era aquela menina.
Colei um post it na foto: quem ela gostaria que você fosse?
No meio das tralhas, tinha um quadro hexagonal que servia de decoração:
Pro caralho com aquilo.
Três dias antes eu percebi que só faltava uma semana pra voltar ao trabalho. Fiz graça, ameacei surtar e não voltar. Por dentro, sentia que alguma coisa invisível apertava minhas costelas até eu não conseguir mais respirar.
Passei dezembro oscilando entre felicidade e tristeza. Não consegui aproveitar por completo os momentos de fim de ano em família porque a sombra do futuro ficava me encarando.
No dia que eu pedi demissão, os momentos ruins dos últimos anos ficaram pra trás. Lembrei da candidata a estagiária que eu era, na entrevista. Aos 20, 21, tudo o que queria era conseguir o emprego e começar a minha jornada na carreira jurídica.
Eu adorava participar das reuniões, organizar os eventos, ações, assistir como as pessoas que eu aprendi a admirar ao longo do tempo se portavam.
Aprendi, cresci e mudei.
Eu.
Não foi o prédio que mudou.
Não foi o trabalho que mudou.
As outras pessoas mudaram, mas não foram elas que deixaram o trabalho que eu exercia insuportável.
Fui eu que mudei, que busquei coisas diferentes, que cultivei outros sonhos.
Hoje, estou escrevendo esse texto no caminho pro que talvez seja a minha última vez naquele prédio. Não sei quantas mil vezes percorri as mesmas ruas todos os dias, durante 7, 8 anos.
E eu não poderia estar mais feliz.
Ps. agora eu quero outro quadro:







Admirável decisão. E admirável atitude, também. Transição de carreira é algo sempre assustador. Passei por isso há quase quinze anos, apesar de ter ido de um cargo concursado a outro, totalmente diferente. Não me arrependo, em absoluto. Afinal, hoje eu atuo onde havia sonhado por anos. Além disso, é uma carreira condizente com minha graduação em Letras. Não deixo de ter inseguranças, no alto dos meus 43 anos de vida e 15 de mediador de leitura. Porém, a certeza de estar no meu caminho permanece.