Manifesto a favor dos livros ruins
ou uma reflexão sobre personagens, pessoas e o lado bom do lado ruim
Recentemente eu li um livro que tinha um personagem cego. Em mais de um trecho a condição física era mencionada, mas as ações dele eram opostas ao que diziam.
Do que adianta outros personagens falarem sobre a condição do moço se:
1. Ele não agia como se tivesse dificuldade para enxergar?
2. A protagonista do livro perguntou se ele era cego só depois de encontrá-lo umas três ou quatro vezes?
3. Ele anda pela cidade inteira tranquilamente, inclusive invade casas alheias?
4. Ser cego não teve nenhuma influência na história?
A incoerência entre o “mostre” e “fale” era tanta que eu comecei a duvidar da minha própria capacidade de entendimento do texto. Pulei alguma explicação, não entendi alguma metáfora, li errado… sei lá.
Mas não, o texto era assim mesmo. O personagem não é verossímil e pronto.
A única justificativa que eu encontrei pra isso foi que ele é um vampiro.
Mesmo assim, até o Demolidor mostra que é cego de vez em quando (no mínimo, usa bengala).
Apesar do incômodo (e olha que foi grande), eu terminei o livro. Porque tem coisa ruim que me prende, acontece.
Além disso, olhando pelo lado bom, esse livro me mostrou, na prática, como a técnica, na escrita criativa, é importante.
E simples.
Todo o incômodo da leitora (eu mesma, muito prazer) acabaria com uma simples pergunta:
“como é a vida de uma pessoa cega?”
A partir daí, a autora teria material pra uns cinco livros. Retirando a parte da saúde (que em uma análise mais superficial não seria problema pro vampiro), ainda sobra um milhão de possibilidades diferentes: locomoção dentro de casa, fora de casa, transporte, comunicação, tarefas rotineiras, escolha de roupa, barba, higiene, relacionamentos interpessoais, trabalho, infância como humano, a necessidade dos outros sentidos… Sem falar que em um cenário fantástico as possibilidades são multiplicadas por cem.
Mas não é isso o que acontece no livro. O que eu vi foram várias pessoas e o narrador dizendo “fulano é cego”, mas o fulano mesmo não parecia se dar conta disso.
Três palavras resumem o que faltou: construção de personagem. Um personagem bem construído convence o leitor a seguir com ele na história. Não é a única coisa que precisa de atenção, mas, em um romance, é o principal. E foi a principal falha da autora.
E que bom que eu li esse livro. Porque, ao contrário do que muita gente fala por aí, eu sei que foi lendo livros ruins que eu aprendi o que faz um livro ser bom.
É mil vezes mais fácil a gente encontrar um defeito no texto do que uma qualidade, principalmente quando somos novos no mundo fantástico da literatura. Quando um texto é bom, é bom por causa de uma série de motivos: personagem, estrutura, diálogo, construção de frases, pontuação, ritmo, estilo, ambientação, cenário, subtexto… O escritor pode ter pensado em cada um deles, ter passado anos revisando o texto, mandando pra deus e o mundo avaliar. Mas o leitor tem a visão total. Ele sabe que é bom. Mas não sabe o exato motivo pra isso (até porque são vários).
Mas quando é ruim… a coisa muda. É só pensar em quantas vezes por dia a gente fala bem de algo. E quantas vezes a gente reclama?
O que é ruim se sobressai.
Não é bom, nem justo nem motivador, mas é a verdade. A gente tá acostumado a passar mais tempo analisando as coisas que nos incomodam do que as que nos fazem feliz.
É por isso que eu sei que a construção de personagem no livro x não foi boa. Ou que a voz narrativa do y não condiz com a idade que a narradora tem. Ou que o plot twist do livro z foi forçado demais.
No fim, o que eu quero dizer é que os livros ruins não são tão ruins assim. Eles são ótimos professores.



Perfeito! Sempre digo isto: que os livros ruins me ensinam o escritor que eu não quero ser.
Recentemente, a Biblioteca onde trabalho recebeu a Antonieta Cunha, que é uma grande editora, pesquisadora de literatura e simplesmente a pessoa por trás da criação da Biblioteca. Ela disse que ler livros ruins é importante justamente por isso, pra aprender o que não fazer. E nesse encontro ela levou dois livros: um ruim e outro bom, discorrendo sobre ambos. E ainda ressaltou que procurou a pessoa que escreveu o livro ruim e falou com ela as mesmas coisas que estava falando com a gente.