Pelo menos sua raiz é lisa
infância, adolescência e vida adulta de um cabelo
— Pelo menos sua raiz é lisa.
Não sei quantas vezes já ouvi essa frase, mas achei que estivesse restrita ao período da adolescência. Alisei o cabelo pela primeira vez quando eu tinha dezesseis anos e o “pelo menos sua raiz é lisa” virou uma variação de “pelo menos seu cabelo é liso”. Aí eu contava que fazia progressiva e o constrangimento junto com “nem parece!” até que me divertia.
Acho que a minha relação com meu cabelo não é melhor nem pior do que a da maior parte da população mundial: amo meu cabelo. Mas tem dia que eu odeio. Hoje é um deles, por exemplo, e o motivo é bem simples: cabelos cacheados têm personalidade própria.
Como se não bastassem as minhas personalidades...
Lembro que no jardim de infância a Lu, nossa babá, fazia penteados em mim. Na minha irmã não precisava, já era liso. Eu ficava alguns minutos sendo puxada pra lá e pra cá enquanto ela entupia de gel e apertava as buchinhas o máximo que conseguia. Uma vez eu escondi a escova e o pente, pensando que ficaria livre. No dia seguinte a Lu usou a escova de roupa pra domar minha juba.
Tinha um ritual de fim de ano: formatura do 3º período com apresentação de todas as crianças e um vídeo comemorativo que mostrava a rotina das mini pessoas na escolinha. Participei 2 vezes dele, no 1º e no 3º período (no meio do segundo as professoras me passaram de ano sei lá porquê). No vídeo do 1º período meu cabelo parecia um ninho de mafagafos no alto da cabeça desbotada de fantasma. Devem ter escolhido pra gravar o dia em que a Lu não foi trabalhar.
Mas até os 6, 7 anos eu não ligava pra se meu cabelo ficava arrumado ou não. Foi só depois que a personalidade própria dele começou a me incomodar. Na terceira série, em outra escola, outras crianças, alguém teve a ideia de um apelido que me perseguiu durante os próximos 3 anos: Michael Jackson.
Eu odiava. Logo, o apelido pegou. Depois de adulta pensei em me fantasiar do moço MJ algumas vezes, mas o timing passou. É estranho pensar sobre isso agora, quando a gente é criança tudo parece o fim do mundo.
Pra minha felicidade, o apelido não me seguiu quando mudei de escola. Tentaram emplacar o “Maria Bethânia”, mas eu já estava mais esperta e entrei na zoeira.
Foi nessa mesma época que a frase “Pelo menos sua raiz é lisa” surgiu. Junto com “seu cabelo alisa sem esforço” da minha tia. A partir daí eu mesma fui testando formas de ficar com o cabelo mais “arrumado”. A maior parte dos experimentos deram errado, é claro. Na foto de formatura da 8ª série ficou o lembrete de uma chapinha muito mal feita e por causa disso eu acreditei durante anos que o que me incomodava era o volume. Agora, sei que o vilão é o frizz e que esse demônio só pode ser extinto por completo com químicas (fora de cogitação hoje em dia). Nos dias bons, consigo controlar. No ruins, aceito pra não surtar.
Uma vez, no ensino médio, eu estava com a cabeça na mesa durante o intervalo e uma menina mais nova bagunçou meu cabelo, pra “me acordar”. Levantei meio sonolenta e lembro do olhar espantado dela quando disse “Nossa, é macio!”.
Nessa época eu já tinha o botão do foda-se ligado. Eu mal conhecia a menina, a gente nunca tinha nem conversado, a falta de noção era dela, problema dela. Deitei de novo e esperei o recreio acabar.
Sim, é macio, diabo, da próxima vez enfia a mão no cu pra ver se rasga.
Apesar de sempre ter gostado do meu cabelo cacheado (nos dias bons), mais ou menos um ano depois disso eu alisei. O “é mais fácil de cuidar” me convenceu. E, realmente, é bem mais fácil. Infinitamente mais fácil. Sinto saudade de uma única coisa do alisamento: não precisar arrumar o cabelo quando acordo. Eu acordava e ia, pronto. No máximo, passava uma escova pra desembaraçar.
Fiquei com ele alisado por quase 10 anos. Nos últimos 3 eu tentava várias técnicas para cachear: babyliss, bobs, instrumentos duvidosos de sites da China, ficar mais tempo sem o retoque da progressiva, dormir de trança, de coque… Flertei muitas vezes com a transição, mas desistia quando a raiz ficava selvagem demais pra mim.
Nesse meio tempo eu clareei as pontas (o tal do ombré-hair), pintei de vermelho (de vez em quando me dá vontade de ser ruiva de novo, mas lembro da manutenção e desanimo), fiquei loira loira loira (ficou tão ruim que durou um mês, amém), voltei pro castanho e intercalei vários comprimentos. A lógica é: o cabelo cresce muito e eu corto no ombro (às vezes mais, às vezes menos) e espero crescer de novo pra cortar...
A transição veio na pandemia (um dos rituais de isolamento foi fazer merda no cabelo e esse eu cumpri). A ideia de um big shop me assustava e seduzia ao mesmo tempo. Um dia, vendo o tiktok (por que, Deus?), vi um tal de corte borboleta e tentei replicar em casa. O contexto do meu cabelo era: pontas lisas de progressiva e uns 9 dedos de raiz virgem.
Ficou tão bom que 1. Não tem foto 2. No dia seguinte eu fui ao salão e cortei. O novo comprimento ficou bem acima do ombro e quase todo cacheado.
Ainda demorei uns dois anos pra entender mesmo como é o meu cabelo. Ele foi mudando, se moldando do jeito que queria ao longo do tempo. Depois de tirar a parte lisa eu achei que aquele cabelo recém cortado era o meu cabelo natural e não era. Alguns anos se passaram antes que eu pudesse dizer que sim, esse é o meu cabelo natural. Entender volume, textura e vontades depois de anos de alisamento levou muito tempo.
Fiquei 5 anos sem fazer qualquer tipo de alisamento. Mês passado, pouco antes de cortar de novo, testei uma escova que alisa da minha irmã e tirei três conclusões: meu cabelo ainda alisa fácil, prefiro ele cacheado e de vez em quando vou querer alisar só pra ver outra pessoa no espelho.
Foi nesse último corte que ouvi a famigerada frase de novo, depois de mais de dez anos:
— Pelo menos sua raiz é lisa.
A cabelereira tentava me consolar, depois de uma longa conversa sobre como diminuir o frizz. Dessa vez, foi engraçado. Sugeriu uma alternativa de alisamento (você só escova, não passa a chapinha, que ele vai voltar) e, quando eu disse que não ia funcionar (ela pode entender de cabelo, mas eu entendo mais do meu cabelo), me passou uma série de óleos bons para umectação.
Claro que vou usar todos, claro que comecei a fazer hidratação semanal (to mantendo essa disciplina há 2 semanas apesar do histórico de anos desistindo de manter um cronograma) e claro que vou continuar tendo frizz.
Nos dias bons, consigo controlar. No ruins, aceito.



Hahaha. Vc não imagina o qto me identifico com esse seu “calvário “ porém ao contrário. Sempre tive cabelo pouco, fino (como de bebê), liso e oleoso. Na infância e adolescência nunca me incomodou. Jovem adulta, já namorando meu marido, fazia escova só pra embutir e dar uma levantadinha na franja, quando íamos a alguma festividade. A brincadeira que ganhou asas foi: vamos rápido, pra chegar antes que o cabelo “desmonte”. A partir daí e durante muitos e muitos anos vivi uma maratona exaustiva de luzes e permanentes pra dar volume e diminuir a oleosidade. Certa vez, o permanente foi tão inoportuno e, em somatória, mal feito que meu cabelo virou um chicletes. Solução: cortar. Ainda segui nessa busca de ter o que eu não tinha por algum tempo. Um dia decidi aceitar meu cabelinho como era naturalmente e investir esteticamente apenas no corte. Buling? Nenhum. Apenas comentários de pessoas mais próximas: nossa, que fininho seu cabelo… parece de bebê. Parece mesmo! Uma ou outra pessoa elogiou e elogia, geralmente é quem tem uma cabelo bem diferente do meu e que dá muito trabalho. Assim foi minha jornada. Parecida com a sua mas ao contrário. Bj. Amo ler o que vc escreve!