Pesos e pavios
O pavio demora pra queimar, são algumas horas (ou dias) que incendiamos por dentro, em silêncio, até a cera toda derreter e evaporar.
Às vezes a vida fica pesada. Semana passada ficou. Não por uma ou duas coisas, por várias.
É assim que funciona, a gente vai levando, vivendo em negação e colecionando frustrações, medos, sentimentos até que uma coisa vem e acende o pavio.
Alguns chamam de gatilho. Aquele negócio que a gente aperta e desencadeia uma explosão. Prefiro pavio. O pavio demora pra queimar, são algumas horas (ou dias) que incendiamos por dentro, em silêncio, até a cera toda derreter e evaporar (às vezes só derrete mesmo). Pra mim, os pavios funcionam melhor.
Semana passada foi assim. Com a desculpa do super feriado e dos meus anos de tribunal, acostumada com folgas mais longas, eu sumi.
Não respondi amigos, resolvi uma ou outra coisa de trabalho, fiquei entocada no quarto, literal e figurativamente. Permiti a mim mesma só sobreviver por alguns dias. Respirar, pensar, ler. Sozinha.
No idioma do TDA, chamamos de exaustão mental.
O negócio com os pavios é que o mesmo fogo que acende a chama, é o responsável pelo fim dele. Dentre os pesos que mencionei, alguns foram relacionados à literatura, minha maior mola propulsora atual. Teve evento, encontro do clube, exercício catártico de escrita e insights pro segundo livro. Talvez sentindo a chegada da moça exaustão, não escrevi. Nem anotei nada, porque eu me conheço. Se eu começar a (re)escrever esse livro, vou ficar obcecada e isso não ia me fazer bem naquele momento.
Claro que estou ligando os pontos só agora. Na hora, eu pensava “não tenho energia, vou deixar pra amanhã”.
Esse autoconhecimento instintivo que veio junto com a mudança de rotina tem sido interessante. Ainda estou aprendendo a lidar com a liberdade de ter meus próprios horários.
Quisera eu que o pavio tivesse queimado só por isso. A literatura foi a parte boa. O combo também incluiu minha avó no hospital (ela tá bem agora) e o falecimento do marido de uma pessoa muito próxima a mim.
Vocês não têm noção do contexto geral e eu não vou explicar porque
1. Não vou expor ninguém
e 2. Nem tenho energia pra isso.
O que consigo dizer é que a frase do Renato Russo: “Os bons morrem antes” ficou na minha cabeça. O caralho que morrem. Os bons sofrem mais e, apesar da minha forma mais prática (se é que posso chamar assim) de enxergar a morte, é injusto pra caralho com quem fica.
Sou péssima em momentos assim, apesar de gostar de escrever sobre o assunto. Eu me sinto inadequada, sem ação, uma escritora sem palavras. Detesto velórios e enterros, acredito que deveriam ser extintos, mas entendo a importância que têm para algumas pessoas. Não gosto de ir, é como se toda a energia do meu corpo fosse drenada. Preciso de semanas pra tentar reajustar os nervos e os eixos. Por isso, não fui.
E me senti culpada por não ter ido.
Agora, pega a carga emocional e exaustiva dos acontecimentos (foram mais, citei só alguns) e bate num liquidificador chamado “TPM”.
Eu tava só o pó.
E em momentos assim eu silencio até me sentir apresentável de novo.
Aos amigos que deixei no vácuo e/ou respondi com monossílabos: foi mal. Daqui a pouco eu volto ao normal.
Pra tirar algo de positivo desses dias, fiz uma lista:
1 – Li, muito. Terminei dois livros e uma HQ e comecei outros. O grande destaque foi “Dentro do nosso silêncio”, da Karine Asth, aka vencedora do Jabuti 2023 com romance de entretenimento. Fantástico, vou ficar com ele na cabeça durante muito tempo.
Até porque vou mediar uma mesa em que a Karine irá participar, na FLIPOÇOS, no dia 3 de maio, às 13h. ENFIM: recomendo.
2 – Passar horas e horas lendo foi maravilhoso. Não fazia isso há algum tempo e reativar esse costume me deixou feliz.
3 – Comi ovo de Páscoa de colher e quero aprender a fazer só pra poder ter em qualquer época do ano. Mais um hobby na lista, se a ideia sair da minha cabeça e virar realidade eu aviso.
4 – Também comi frango ao molho pardo. Tem gosto de frango, molho pardo e infância.
5 – Nesse tempo todo eu também pensei no segundo livro. Sei os caminhos pra sair dos labirintos que me enfiei, amém. E aceitei: sou poeta.
Mas antes de mergulhar de novo nele, vou escrever um conto. Aquele que eu estruturei com a ajuda de enquetes no instagram.
Até porque eu preciso de um romance fofíneo pra deixar a escritora que vos fala mais leve.



A vida sempre tem um jeito de nos dar um tombo. É assim. A cada ano a gente conta as novas cicatrizes, soma com as antigas e segue em frente. Esse autoconhecimento adquirido é muito bom. Ajuda a gente a se preservar. Eu também aproveitei o feriado pra ler. Acho que foram cerca de 4h por dia em uns dois dias. Terminei pela terceira vez o segundo livro da Aline Bei. Foi maravilhoso. Realmente, ler por horas é uma experiência única. Só sabe quem já experimentou. E sinto muito pela experiência dessa morte próxima. É mais uma marca na pele da alga da gente. O importante é que você segue em frente, produzindo.
Como disse o Guimarães Rosa: "a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza!"
Que venham dias melhores, Bianca!