Primeiros
O primeiro texto da newsletter tinha que ser sobre uma primeira vez
Quando eu era criança, na quarta série, tive um dos meus momentos epifânicos relacionados com a escrita. A professora, tia Helen, sugeriu uma atividade que até então nenhuma professora tinha sugerido: um poema. Tema livre, tamanho mais livre ainda. Ela explicaria o básico de rima e métrica e nós, no auge dos nossos nove, dez anos, ficaríamos com o para casa de escrever nossa própria poesia.
Era o meu quarto ano no Colégio Adventista de Belo Horizonte. O quarto ano me sentindo inadequada em todos os grupos possíveis. Eu não era da igreja, não era filha de pastor, não participava das excursões, não era do grupinho de escoteiros, muito menos era amiga das alunas populares ou tocava algum instrumento musical. Não ficava na fileira da frente do coral e nunca era escolhida para participar das peças de teatro bíblicas encenadas na capela. Meu ponto máximo na carreira de atriz foi ser uma das muitas mulheres que apedrejaram Jesus.
Aos dez anos, ninguém te fala, mas você sabe quando não é bem-vinda.
Naquela tarde, voltei para casa com uma tarefa diferente: escrever um poema. Sempre detestei fazer o tal do “Para Casa” e consegui sobreviver durante o ensino fundamental e médio sem precisar fazer muitos, mas aquele ali tinha uma coisinha que me chamava. Destino, talvez.
Coloquei minha ponta do lápis n. 2 na folha pautada do caderno brochura barato e escrevi minha primeira obra literária: uma poesia de uma página e meia sobre como as crianças da África passavam fome e não tinha ninguém para ajudar.
No auge dos meus nove, dez anos, mostrei a poesia para todo mundo que eu conhecia: pai, mãe, irmão mais novo que nem sabia ler, babá, professor de natação, vó, vô… Os adultos, geralmente, não dão muita importância ao que a criança faz. Aposto que ninguém lembra desse episódio, mas eu lembro exatamente da sensação de orgulho e plenitude que tive quando terminei a poesia. E a única certeza que eu tive, naquele momento, foi que eu queria sentir aquilo mais vezes.

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