Realidades inventadas
Narrativas reais
Atire a primeira pedra quem nunca viu uma postagem no instagram e pensou “as coisas pra essa pessoa acontecem tão rápido!” E não precisa nem ser o perfil de uma famosa nível master blaster megalomaníaco tipo a Virgínia e a Juliete. Pode ser o da colega do lado, que tem menos seguidores que você e foi convidada pra um evento grande.
No Tribunal, tive uma chefe que dizia “a inveja é o que move o mundo”. O contexto era bem específico: mendigávamos que os juízes do interior do estado fizessem ações de prevenção à violência doméstica em suas comarcas. Como “incentivo”, eles apareceriam no portal oficial, uma matéria com entrevista, fotos e informações sobre as ações que fizeram.
Na minha cabeça na época (e ainda hoje) não fazia sentido “premiar” alguém que não fez mais do que a sua obrigação. Está na lei, era (e ainda é) atribuição deles. Mas ao longo dos anos eu vi na prática como algumas pessoas funcionavam.
Se o fulano aparecia no portal, o ciclano ligava e perguntava como fazia pra também aparecer. Se o ciclano aparecia, outra pessoa perguntava como poderia criar um projeto novo na comarca.
Meu sonho de princesa era que todas as 298 comarcas do estado de Minas Gerais tivessem projetos voltados para a prevenção da violência doméstica. Mas não aconteceu, e eu duvido que aconteça.
Sim, eu sou a chata do rolê que não acredita na humanidade e torce pro meteoro chegar e trazer os dinossauros de volta, só pra garantir.
Mas aumentamos o número de juízes “engajados” na causa. De quase 300 comarcas, umas 30 (talvez menos) tinham ações esporádicas e umas 10 atuavam com regularidade. Esse número subiu um pouco durante um tempo, graças à política da inveja.
Mas o assunto que eu quero explorar aqui é o tal “prêmio” pro juiz que executava seu trabalho. A equipe de comunicação entrava em contato com o povo da comarca e fazia uma cobertura da ação. A grande estrela era o magistrado.
Ao longo do tempo percebi as dinâmicas do ambiente onde eu trabalhava. Daria pra escrever um livro inteiro sobre aprendizados que tive no judiciário, mas agora eu tenho projetos mais importantes pra desenvolver, então vou me ater a uma informação apenas:
Em 90% dos casos divulgados pelo portal oficial, o juiz teve uma participação mínima no desenvolvimento do projeto. Em algumas das comarcas, a iniciativa nem tinha partido dele, mas de outra profissional (99% de mulheres também): promotora, delegada, defensora, advogada, assistente social, psicóloga, investigadora de polícia, policial militar, guarda municipal…
Mas quem aparecia na matéria era ele. O magistrado preocupado com a situação da violência doméstica no país, no estado, na comarca. Para os outros magistrados desavisados, ele era o grande incentivador da Política Judiciária Nacional de Combate à Violência Contra a Mulher.
Sim, temos uma Política Judiciária Nacional, criada pelo Conselho Nacional de Justiça. Resolução CNJ 254/2018 (algumas coisas são difíceis de esquecer)
Em nenhuma das matérias falou-se sobre o trabalho árduo que é articular uma mobilização para ações de política pública. Ninguém mencionou que havia uma equipe de apoio (equipe = 1 ou 2 pessoas) no gabinete, na secretaria, em outros órgãos buscando parcerias, fazendo reuniões de 2, 3 horas pra colocar um projeto em pleno funcionamento. Muito menos que as pessoas que trabalharam no projeto fizeram hora extra, estavam exercendo atividades que extrapolavam seu contrato de trabalho, tentando dar conta do trabalho de 2, 3 pessoas porque o déficit de pessoal é imenso no estado inteiro. Imagino que no país.
Tem muito servidor público ganhando salário absurdo sim, mas esses não colocam a mão na massa. O trabalho pesado sempre sobra pra alguém que está sobrecarregado e não recebe o suficiente pra pagar o psiquiatra e os remédios controlados. Mas deixa esse assunto pra outra hora, já tá tarde…
O que aparecia na matéria era uma narrativa criada pra satisfazer uma determinada vontade. Não era imparcial, não era democrática, muito menos realista.
Recentemente viralizou um vídeo da Ministra Marina Silva sendo desrespeitada em uma audiência em algum órgão sei lá de onde. Vi o vídeo completo da participação da Ministra e vi a cobertura do Jornal Nacional. Minha opinião sobre quem tá certo ou quem tá errado aqui é irrelevante, mas o jornal contou uma narrativa com início, meio, fim, clímax e personagens e a realidade não foi só o que falaram.
A gente manipula a realidade o tempo inteiro.
No curso de roteiro (eu disse que vocês me veriam escrever e falar sobre ele várias vezes) aprendemos que a narrativa clássica não imita a vida real. Ela é uma representação limitada da realidade. Pegamos um traço exagerado de uma pessoa (a vaidade do Keanu Reeves em “O advogado do diabo”, a obsessão do protagonista de “Whiplash”…) e construímos uma história ao redor dela. Ninguém é vaidoso o tempo inteiro, ninguém é obcecado o tempo inteiro.
A gente manipula a realidade o tempo inteiro.
Fazemos isso nos nossos livros, caramba. Ninguém tem medo o tempo inteiro, só a Ângela Értom, uma personagem criada pra exercer um papel em uma história que eu queria escrever. Em uma narrativa que eu queria contar.
A gente manipula a realidade o tempo inteiro.
Na literatura, me deparei com algumas situações assim. Mencionei a Virginia e a Juliete no início do texto porque foram no instagram as mais recentes.
Um escritor X postou que a participação dele no evento Y estava lotada. Eu estava na plateia durante a participação. Foi muito boa, rica e necessária. Mas lotada não estava não. Tinha meia dúzia de gatos pingados sentados e uma fila maior de autores esperando a sua vez de brilhar.
A gente manipula a realidade o tempo inteiro.
Outro episódio: no instagram apareceu que fulano recebeu um convite especial e a realidade foi que mandaram o convite em vários grupos, cada um deles com várias pessoas, mais de 30 eu garanto.
A gente manipula a realidade o tempo inteiro.
Pra encerrar, uma minha: fiz posts sobre a bienal mineira do livro e coloquei minha breve participação no meu portfólio. A realidade foi que no meu primeiro dia de bienal eu saí de lá me sentindo um lixo.
A gente manipula a realidade o tempo inteiro.
Como dizia a vó de alguém: nem tudo que reluz é ouro.
Cuidado com as narrativas que vocês compram. Há mais coisas entre o evento e o vídeo de divulgação que a nossa vã filosofia enxerga.



Principalmente em época de redes sociais, inflamos a realidade, aumentamos ela para parecermos como pessoas requisitadas. Lembro da menina de Contagem que disse ter um tanto de experiência profissional como diretora de projetos da Nasa, mas na realidade ela tinha um conjunto de cursos abertos para todos. Tentamos crescer nossa realidade para aos outros, criamos nossas histórias "reais" para vender para as outras pessoas. Quando resolvemos não fazer, há questionamentos do por que não colocamos de tal forma. Afinal, hoje em dia a ficção da realidade é uma das formas mais fáceis de vendermos nosso peixe...
Bem isso! O melhor é assumir que tem viés, sim, e impor ao ego algum tipo de dieta, pra evitar que cresça demais.