Repertório
Não existe escrita sem repertório.
Sempre fui uma pessoa inquieta. Desde criança.
Mais nova, eu precisava correr, brincar, bagunçar a casa, brigar com meus irmãos, rabiscar e escalar as paredes… Me movimentar.
Agora, eu preciso movimentar a minha mente. Sou apaixonada por escrita, saí do emprego CLT pra viver dela, mas ela não funciona sozinha. É preciso ter repertório pra escrever. Até pra escrever sobre si mesmo.
No ano passado, fiz uma leitura crítica de um livro que tinha uma pessoa com deficiência como personagem. Tive mais uma prova prática de como profissionais do texto precisam beber de várias e diversas fontes para conseguirem trabalhar com o texto. E por várias e diversas eu não quero dizer vários livros de romance romântico de várias autoras diferentes. Eu quero dizer vários gêneros, vários formatos, várias artes, várias vivências.
Meu avô materno teve paralisia infantil e conviveu com a deficiência a vida inteira. Eu, a vida inteira, convivi com ele.
Repertório.
Nos últimos meses no tribunal precisei estudar questões de raça, gênero e pessoas com deficiência de forma mais aprofundada. Os conhecimentos que absorvi tendo um familiar com deficiência física deixaram de ser suficientes. Eu me distanciei, adquiri um olhar panorâmico porque eu precisava pensar em política pública e a experiência de um único indivíduo serve de exemplo, mas não de modelo.
Repertório.
Minha obsessão por livros me levou, na adolescência, a ler como se eu fosse uma viciada ansiando a próxima dose. Perdi a conta de quantas noites virei lendo. Nas férias, acordava às 10, dormia até meio dia e almoçava com outro livro no colo. Lembro de um romance sobre uma mulher que se apaixonava por um sobrevivente de guerra que não tinha uma parte das pernas.
Repertório.
Em “Como eu era antes de você”, adaptação de um livro da Jojo Moyes, o personagem do Sam Claflin é tetraplégico e em passagens do filme são mostradas algumas dificuldades e peculiaridades da vida de alguém que não consegue se mover.
Repertório.
A Lais Souza, ex-ginasta que ficou tetraplégica em um acidente nos Estados Unidos, posta vídeos no instagram compartilhando pequenos trechos da sua vida. Vez ou outra aparece algum pra mim, seja de uma reunião comemorando a vitória da seleção brasileira de ginástica olímpica ou de alguns momentos na praia. Já a vi falando sobre o acidente e outros registros em que ela mostra pequenos trechos da fisioterapia.
Vocês já sabem: repertório.
Eu não busquei um livro com personagem deficiente pra fazer leitura crítica. Não estudei anos e anos sobre o assunto. De todos os conteúdos que eu listei, apenas o do trabalho do Tribunal eu fui atrás. Com o meu avô, não tive opção. Os outros, assim como a leitura crítica, apareceram. Das mais variadas formas, pelos mais variados motivos. Mas só apareceram porque eu estava disposta a ler, assistir, consumir e observar conteúdos e vivências diferentes da minha e do que eu já estava acostumada. Apareceram porque eu estava com a mente aberta.
Repertório, esse moço de nome sofisticado, não vem de uma vez. Não vem de uma caixa na amazon, seus professores de escrita e leitura crítica não vão te enviar uma planilha no excel com o título “coisas para estudar sobre todas as coisas”. Ele é construído. Com tempo, com experiências e, principalmente, com curiosidade.
Não existe escrita sem curiosidade.



Assino embaixo de tudo que você escreveu. Existe a trajetória, a memória pessoal, a memória coletiva e a curiosidade. Isso tudo se constitui em repertório. Confesso que me considero uma pessoa meio pobre de repertório, apesar de ter lido muito. Falta-me diversidade de fontes, linguagens artísticas (sou fraco em cinema e música), entre outras coisas. Fico me perguntando se eu sou uma pessoa curiosa. Por vezes, acho que não. E ao mesmo tempo, tento mudar isso. Meio que uma "curiosidade forçada". Será que isso existe? Rsrsrs... Curioso em saber mais sobre esse percurso de transição de carreira.