Saudade
e ancestralidade, e IA e minha bisavó.
Essa porra desse filtro de IA que coloca você abraçando alguém me fez chorar. Algumas pessoas colocaram ídolos, outros colocam gente que já morreu e teve quem colocasse uma versão de si mais nova.
Eu não fiz, sempre achei esses negócios meio bizarros.
Mas, porém, contudo, entretanto, todavia:
Pensei na minha bisavó quando vi a trend pela primeira vez.
Já falei dela algumas vezes: que me inspirou a escrever Értom, a Bisa do conto que faz parte da coletânea “Em Cada Canto: Cinco Contos de Natal”, que morreu quando eu tinha 12 anos… Então, decidi que a News de hoje seria sobre ela.
Natália Prates Pontes nasceu em 1918, em Jequitinhonha/MG. Pariu 8 filhos e perdeu 4 ainda crianças, de inanição. A última a falecer tinha apenas 2 anos.
Dela, herdei a asma, o queixo e o ar meio sorumbático, meio bem-humorado.
Uma das histórias que guardo com carinho é de quando ela veio para BH nos visitar pela primeira vez (eu tinha uns 4, 5 anos) meu pai falou alguma besteira e minha mãe, morta de vergonha, disse:
— Para, Joãozinho, minha vó tá aqui!
— Ih, Fernanda, sua vó tem mais hora de cama que urubu tem de voo!
Em uma família “normal”, isso poderia gerar uma treta gigante. Na nossa, virou piada.
Vó Natinha riu e daí pra frente foi só pra trás.
Dois anos antes dela morrer, descobri um baú lotado de roupas antigas, dela e do meu bisavô. Desfilei pela casa usando os vestidos de quando ela era jovem (abertos, porque eu já era maior que ela). Presenciei um dos momentos mais preciosos e, descobri mais tarde, raros da Dona Natália.
— O Afonso era muito bonito… — Enxugou os olhos. — Muito bonito mesmo.
Eu fiquei em silêncio enquanto ela contava sobre o dia do casamento, passava a mão no porta-retrato, me dizia que tiveram que fugir para se casar e que rodaram o estado todo até chegar em Mantena. Só depois de adulta que senti vontade de voltar àquele dia e fazer um milhão de perguntas sobre um milhão de coisas.
Não lembro de muita coisa, o pouco que sei sobre sua história veio de outras pessoas, não dela. Natinha era quieta, tímida, tão na dela que me intimidava. Escondia dinheiro dentro da caixa do remédio de asma e dizia pra eu não contar pra ninguém que foi ela quem me deu.
Gostava de caça-palavras, de escrever cartas, de ouvir fofocas e de me aconselhar.
— Obedece sua mãe, Bianca.
— Volta da casa do Emerson (meu padrinho) pra almoçar.
— Não bate nos seus irmãos.
— Fala pro seu pai que você precisa voltar cedo, porque vai que ele tenta te levar pros Estados Unidos com ele…
Anos depois da sua morte eu liguei os pontos: os nomes dos seus filhos foram inspirados nos livros do José de Alencar. A ironia é que ele é meu trauma literário de ensino médio e o motivo que me faz pensar que, se ela tivesse mais tempo, seria a primeira pessoa da família pra quem eu contaria sobre a escrita.
Sonhei com ela esses dias, talvez venha daí a vontade de escrever essa news.
Vó Natinha tinha o cabelo branquinho, a linha d’água bem vermelha e morria de medo de trovão.
Acredito que ela ainda vive em mim, que algo ainda nos une.
Espero que seja a literatura.



