Sobre fazer coisas novas
Foco, leitura e as vantagens de ser inquieta
Larguei o crochê. De novo.
(Se você não entendeu nada logo na primeira linha, falei sobre a saga do crochê nesse texto aqui)
Na segunda, li um texto do Felipe Sali que tinha a seguinte frase:
“Tem texto que descaralha mesmo”
Queria ter inventado essa frase, pra usar de bio do instagram. E de frase do whats, minibio de escritora, tweet fixado… Mas o twitter faleceu, né? Virou um trem que eu nem sei mais falar o nome… tá vendo, o Felipe tem razão: tem texto que descaralha mesmo. Eu ia falar sobre mais uma desistência do crochê e acabei chegando em rede social tóxica.
O desafio é encontrar, entre todos os textos dessa newsletter, quais não descaralham.
Mas pensa comigo: deve ser um saco ser uma pessoa metódica que traça uma linha reta e segue o traçado, evitando curvas, desvios, mudanças de foco e experiências novas. É mais eficiente? Sim. Mas também é chato pra caralho.
Bom, vamos voltar.
Larguei o crochê. De novo.
Meu recomeço na arte de fazer pontos com lã durou uma semana e pouquinho e rendeu uma roupinha de gato-elfo inacabada. Deixei lã, agulha e esperanças no cesto da minha mãe e pedi pra ela terminar. Duvido que o Légolas algum dia vista sua indumentária élfica cinza, marrom e vermelha toda trabalhada no caos de pontos mal-feitos.
Saudades do que nunca ficou pronto.
Falando em mãe, a senhora minha progenitora está escrevendo um conto. Adivinha quem é a sua leitora crítica particular?
Acertou quem disse que sou eu, a escritora que vos fala.
Confesso que estou gostando da experiência por vários motivos.
1 – Mamãe está entendendo (mesmo que em escala muito menor) meu fascínio pela escrita.
2 – Mamãe está entendendo (talvez em escala maior) minhas dificuldades com a escrita.
3 – Confesso que senti certo prazer vingativo em riscar e anotar no papel os trechos que ela precisa revisar/reescrever/apagar. Me lembra de quando eu era pequena e ela me dizia pra varrer a casa. E depois eu tinha que varrer de novo porque não ficou limpo o suficiente.
O mundo não gira, capota.
4 – Depois de me sentir o cocô do cavalo do bandido por querer largar o direito (essa fase ficou pra trás, amém), me dá um quentinho no coração saber que inspirei outras pessoas a buscarem seu próprio caminho, na escrita ou em outra área. E inspirar gente de dentro de casa… cara, me dá muito mais do que um quentinho.
Entretanto, porém, todavia, contudo… Nem tudo são flores. Mamãe não tem o hábito de ler, então revisar seu texto (tanto estrutura quanto linguagem) é mais complicado. Não porque o texto é muito ruim e não dá pra arrumar (já vi escritores publicados escrevendo coisas muito piores), mas porque não consigo mostrar referências. Se eu disser “Faz que nem a Taylor Jenkins Reid que narrou da forma x y z.”, ela não vai entender. O mostrar envolve, então, escrever o que estou tentando explicar.
E passar horas falando e demonstrando os efeitos de cada construção de frase.
E nem sempre funciona. Porque ela não tem repertório para comparar. Se eu falo que um filme tem uma “aura sombria” ela entende por comparação. “Vingadores e Annabelle, qual é mais sombrio?” Mas se eu falo em palavras que deixam um texto assim ou assado, é mais difícil de demonstrar, mesmo com trechos.
Por isso, pequenos gafanhotos, que eu insisto tanto na leitura.
Leiam, caralho! Leiam! Com uma bagagem de leitura em constante aperfeiçoamento, algumas coisas saem de nós quase que por osmose.
Na escola, tive facilidade com redações e interpretação de texto. Usar vírgula e crase era fácil, quando eu precisava escrever. Mas na hora de pensar em regras e dar nome aos bois, a coisa desandava. Orações subordinadas e coordenadas foram o meu terror do ensino médio, só aprendi (e esqueci de novo) na pós em revisão de textos.
Me dê um texto e eu sei apontar os erros no uso da vírgula, mas não me peça para listar as regras da moça. Falo umas duas e, depois, travo.
Voltando pra mamãe:
Se ela vai querer escrever alguma coisa depois desse conto eu não sei. Talvez esteja traumatizada (e olha que até agora foram só 4 versões de um conto de 3 páginas) e nunca mais queira passar perto de uma folha de papel. Mas tudo bem, ela não é obrigada a vender a alma pra literatura, como eu fiz.
Isso não me impede de repetir “Você precisa ler, escrever só fica mais ou menos fácil quando a gente lê sempre”.
Paciência.
O importante é que ela está experimentando. Crochê, escrita, design gráfico, viajar sozinha… é isso que eu faço sempre, desde que surtei na pandemia: experimento coisas diferentes.
E é assim que a gente descobre do que gosta ou não, experimentando.



Muito boa (rs)! Parabéns às duas pela paciência e perseverança.
😂😂😂😂 como sempre e, 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼.