Sobre poços e exageros
Mais um tapa na cara da realidade: sim, eu morro sem escrever.
Quando comecei a trabalhar, conheci uma caloura da faculdade de direito. Eu ainda tinha a empolgação irritante de quem conseguiu estágio em órgão público e conhecia pessoas importantes. Melhor ainda: no estágio eu vivia momentos como o de assistir um ensaio de um espetáculo de teatro. Não era só direito, também era arte! E tinha essa menina de 17, 18 anos (eu tinha uns 20, 21), recém-entrada na faculdade e que fez teatro a vida inteira.
Nós duas desistimos da arte para ter dinheiro. A diferença era que eu ainda me enganava. Ela? Ela começou a chorar quando conversou com o dramaturgo.
Não sei seu nome, mas lembro da sua emoção. Eu a ouvi contando uma história de uma atriz famosa que dizia que viver sem arte era apodrecer por dentro e terminar com “e eu choro de saudade todo dia”.
Eu, estudante de direito em uma vaga de estágio remunerado no órgão mais concorrido do estado (ou seja: chata, arrogante, me achando a própria Cármen Lúcia), pensei “exagero”.
Tem uma frase famosa de um escritor famoso que fala que sem a escrita ele morreria. Já ouvi muito isso ao longo dos anos. Mesmo durante a pós-graduação, quando a bendita frase era citada, eu ainda pensava “eu não morro se eu não escrever”.
Só que um dia desses, eu parei para pensar no passado recente.
Maio de 2020. Pandemia. Eu chorando copiosamente em uma chamada de discord porque minha vida profissional estava estagnada e eu não queria mais seguir o “sonho jurídico do concurso público”. O maior desespero: não ter como viver de escrita no Brasil.
Início de 2021. Voltando ao trabalho presencial (sim, ainda tinha pandemia) e tendo crise de ansiedade sempre que entrava no prédio. Eu sabia o que queria, mas o que eu queria não daria dinheiro e eu não tinha experiência com outra coisa.
Julho de 2022. Li um livro em que a protagonista estava no princípio de uma depressão. O livro não era bom, mas o que a mocinha sentia era parecido com o que eu mesma sentia. Esse foi o gatilho para eu procurar qualquer coisa que tivesse relação com a escrita. Encontrei o curso de escritor profissional da LabPub e, mesmo que fosse só um certificado sem validade no mundo lá fora, eu faria algo que, talvez, me fizesse feliz.
Até semana passada eu achava que morrer sem escrever era drama de escritor. Talvez seja, não vou morrer de fome se eu não escrever. Mas existem outras formas de morrer. Meu romance mesmo fala disso.
E eu sou uma escritora, logo, dramática. Acho que comecei a morrer um pouco (não de fome, mas de alma) quando tentei fugir disso.
Enquanto o caos mental reinava, tudo o que eu pensava era que não queria chegar ao fundo do poço. Hoje, vejo que aquele era sim o meu fundo do poço. Eu não reconheço a Bianca de 2020. Estou muito distante da Bianca do fim de 2022, que já tinha firmado pé que viveria de escrita, mas não fazia ideia de como conseguir. Hoje, ainda não sei exatamente como as coisas vão se ajeitar, mas sei que vão. Sinto o cheiro no ar. Eu sei, é bizarro, é confuso e não tem explicação. Mas algumas coisas não precisam ter.


