Véspera de Dia Internacional da Mulher
e nóis tá como?
No ônibus, uma bebê chora como se o mundo estivesse acabando. Às vezes, eu também queria chorar assim. Gritar e espernear, usar toda a capacidade do meu pulmão para berrar que este mundo está todo descacetado, mas fica feio fazer isso aos 28.
A mãe, coitada, só faltava pedir pelo amor da Deusa pra criança, de um, dois anos, explicar, de forma coerente e madura, o que estava acontecendo. Na verdade, até pediu. A bebê que não respondeu. Está cada dia mais complicado conversar com essa geração nova.
Por um momento, eu quase acreditei que a menina ecoaria meus pensamentos:
"tem cinco mil horas que estamos nessa lata de sardinha, lá fora o mundo está se acabando em água, o ar-condicionado está muito frio e a senhora da cadeira do lado não para de olhar pra cá com cara de cu".
Ela não fez isso. A bebê. A senhora fez sim. Como se a mãe fosse a culpada do choro da criança. Como se não estivesse fazendo o suficiente. Como se não tivesse coragem e pulso pra estapear a menina até ela calar a boca e parar de ofender os delicados ouvidos da terceira idade.
Queria eu poder estapear as mulheres que olham torto para outras mulheres que estão claramente exaustas e sem saber o que fazer com os próprios rebentos. Não posso, e nem iria adiantar. Está cada vez mais complicada a comunicação com a geração mais antiga.
Poucos metros e muitos minutos depois, a menina parou de chorar. Bebeu água, talvez leite, desistiu de tentar se teletransportar pro berço. Se já está ruim assim, imagina a vida adulta, menina. Na sua idade a gente pode, pelo menos, gritar.
Falando nisso, semana passada eu quis gritar, mas só chorei. Essa semana eu fiquei feliz por ter chorado, tirou um bocado de coisa entalada. Sigo cansada, adestrando minha cabeça para não pensar no futuro, a focar em uma coisa de cada vez, controlando a ansiedade e o medo, confiando nas borboletas que aparecem do nada.
Em alguns momentos elas me animam. Em outros, me deprimem. Eu nem sei se o tal do presságio de boas notícias é real, vai ver só tem um ninho de borboletas lá em casa, no trabalho e no meio da rua. E se estivermos na época de lagartas deixarem o casulo? Nem vou pesquisar, ignorância conserva a saúde mental.
Já que falei delas: existe ninho de borboletas? Isso eu posso pesquisar, depois de acabar de rascunhar esse texto enquanto tento chegar em casa, no meio da chuva e do ar-condicionado da lata de sardinha.
A criança, no colo da mãe, voltou a gritar.
Por nós duas.



Adorei!!!!
Lindo texto Bianca <3